"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Parietaria judaica L.

Nomes comuns:
Alfavaca; alfavaca-da-cobra; alfavaca-de-cova; amarras; cobrinha; columbrina; erva-das-muralhas; erva-das-paredes; erva-de-Nossa-Senhora; erva-de-Santa-Ana; erva-de-Santana; erva-do-amorra; erva-dos-muros; erva-fura-paredes; fava-da-cova; helxina; parietária; pulitaina; pulitária; urtiga-mansa.


Faz agora precisamente um ano que partilhei com vocês alguns factos sobre as nossas amigas urtigas, com especial enfoque na espécie Urtica membranacea. Agora, é a vez de darmos especial atenção a outra espécie da mesma família (Urticacaeae), a Parietaria judaica. A principal e óbvia diferença entre estas duas espécies que, embora da mesma família pertencem a géneros diferentes, reside no facto de Parietaria judaica não ser agressiva ao toque por falta de pelos urticantes.
Parietaria judaica é uma daquelas plantas que fazem parte da minha memória de infância. Entre outras, esta era uma das espécies que a minha mãe procurava e recolhia para secar e fazer chá, sempre que passávamos férias na Beira Baixa. Não que esta seja uma planta especialmente bonita ou tenha alguma característica fora do vulgar. No entanto, ficou-me na memória o nome engraçado de alfavaca-de-cobra pelo qual é conhecida na região. Até hoje, não consegui entender a razão de tal epíteto, ou seja, em que sentido é que a cobra é para aqui chamada. Sabemos que a palavra alfavaca vem do árabe “al-habōqâ”, nome que os árabes davam às plantas aromáticas usadas em culinária ou como medicamento. Em português a palavra alfavaca é dado a certas espécies aromáticas, nomeadamente o manjericão, planta inteiramente diferente da incrível alfavaca-de-cobra. Terá esta servido de mezinha contra os efeitos da mordidela de cobra? Há quem assim o afirme mas é impossível agora confirma-lo. Os nomes vulgares que o povo usou para batizar as plantas foram verbalmente transmitidas de geração em geração, por vezes ao longo de séculos, sujeitas a diferentes interpretações causadas por deturpação da língua. O mesmo já não acontece com os nomes em latim ou latinizados usados na classificação científica, pois são usados e reconhecidos em qualquer parte do mundo.
Como erva medicinal Parietaria judaica já teve o seu momento de glória. As suas folhas eram usadas em chá para problemas de estômago e intestinos, inflamações da bexiga, patologias hepáticas e renais entre outras. Também tem efeito diurético. O seu uso mais conhecido tem a ver com o tratamento de hemorróidas, em banhos de assento, usando a água do cozimento das folhas. Há quem ainda a use, muitas vezes associada com as malvas e outras ervas. 

Alerta:
Os tratamentos continuados com ervas medicinais sejam elas quais forem, não devem ser conjugados com a toma de medicamentos pois podem interferir com a ação destes. Podem duplicar a ação dos medicamentos, impedir a sua absorção ou até impossibilitar a eliminação dos mesmos pelo organismo no tempo programado. Os acidentes mais graves têm sido registados em casos de intervenção cirúrgica pois podem bloquear a ação dos anestésicos ou o tempo de coagulação do sangue. Veja mais AQUI

As folhas são comestíveis, quer cruas, quer cozinhadas e não só são uma boa fonte de fibras como são também ricas em minerais (fosforo, ferro e cálcio) e vitaminas A, B1, B2, B3 e C. O sabor das folhas cruas lembra o do pepino mas se cozinhadas tornam-se mais suaves, permitindo que haja uma boa ligação com o sabor de outros alimentos. Apesar de fibrosos, os caules também são comestíveis.
Parietaria judaica é também uma planta bastante apreciada por certos tipos de borboletas cujas larvas se alimentam das suas folhas, como é o caso da Vanessa atalanta.
Vanessa atalanta: vulgarmente conhecida como red admiral ou Almirante vermelho europeu é bastante frequente em Portugal podendo ser observada em todo o país. Veja mais informações AQUI.
Foto de Didier Descouens / Fonte: Wikimedia Commons
Apesar das suas qualidades como erva medicinal, alguns de nós precisamos de ter cuidado com a Parietaria judaica. Os seus pequeníssimos grãos de pólen são muito abundantes e voláteis, além de persistirem longamente no ar que respiramos, provocando agravamento nos sintomas de asma e rinites alérgicas de quem é mais sensível ao pólen desta planta. 
A planta floresce de março a outubro e por vezes durante o ano inteiro, se o inverno for suave. Este longo período de florescimento e a alta produção de flores são atributos associados às plantas de habitats perturbados e portanto são características esperadas numa espécie ruderal como é o caso de Parietaria judaica.
No âmbito das chamadas ervas “daninhas” as Parietaria (género com 10 espécies das quais 3 existem Portugal) parecem ser as que motivam mais alergias. Contudo, são as gramíneas a principal fonte deste mal que atinge quase um terço da população. Também existem árvores cujo pólen nos pode causar alergia como é o caso da oliveira, dos eucaliptos ou dos carvalhos, apesar das suas flores serem tão pequenas que mal damos por elas. São precisamente os grãos de pólen mais pequenos que causam as maiores alergias; eles andam em suspensão no ar mas não os vemos. O seu efeito maléfico é potenciado nas cidades devido às partículas da poluição que alteram a sua configuração e os tornam mais agressivos.
Parietaria judaica encontra-se um pouco por todo o território nacional, sendo nativa de Portugal continental e Arquipélago da Madeira e introduzida nos Açores. Esta espécie é autóctone de toda a bacia mediterrânica (sul da Europa e norte de África) incluindo a Ásia menor. A planta foi introduzida noutros países podendo agora também ser encontrada em países do norte da Europa, na costa ocidental dos Estados Unidos e na Austrália. Cresce principalmente em terrenos pedregosos, rachas dos pavimentos, em paredes e muros antigos em cujas fendas se vai acumulando terra e lixo que tornam o solo rico em nitrogénio e onde as raízes encontram a frescura de que a planta necessita. É muito frequente aparecer em hortas e jardins cujo solo regado e nitrogenado muito aprecia. No entanto, é nas grandes cidades cujos ambientes estão altamente perturbados devido às contínuas movimentações do solo e à poluição que o seu efeito alergénico mais se faz sentir. Na verdade, alguns estudos sugerem que a poluição de metais pesados aumenta a capacidade reprodutiva desta espécie o que demonstra uma alta plasticidade fenotípica, capacidade que lhe permite alterar a sua morfologia de acordo com as condições ambientais. Esta característica é considerada como promotora do sucesso de espécies expansivas e invasoras (Rejmánek 1996).
O nome genérico Parietaria (que derivou da palavra latina paries = muro, parede) refere precisamente as suas preferências em termos de habitat. O epíteto judaica que designa a espécie foi-lhe dado por Lineu, autoridade que primeiro publicou a descrição da espécie em 1756 em Flora Palaestina, com base em espécies trazidas da antiga região da Judeia. Esta obra foi realizada em colaboração com Bengt Johan Strand (naturalista sueco 1738-1790) e é basicamente uma compilação das espécies coletadas por Frederic Hasselquist. Em resposta aos lamentos de Lineu quanto à falta de informação sobre a história natural da Palestina, este naturalista sueco (1722-1752) que tinha sido colega de Lineu na Universidade de Uppsala e era seu seguidor, empreendeu uma expedição à Palestina, Chipre, Egito e Asia Menor onde recolheu bastantes espécies. Esta expedição durou cerca de 3 anos. No regresso Hasselquist faleceu mas a sua coleção de plantas chegou a casa em segurança permitindo o seu estudo e classificação científica.
Os caules estão cobertos de pelos densos
Parietaria judaica é uma erva perene cujos caules formam pequenas moitas de 20 a 60 cm de altura e muito ramificadas. Os caules, de cor verde acastanhada ou avermelhados, são eretos ou prostrados. Estes tornam-se ligeiramente lenhosos na base e estão cobertos de pelos densos.
As folhas não apresentam estipulas. São alternas, com pecíolos de 3 a 12 cm, inteiras, ovais ou lanceoladas, de cor verde-escuro, quase glabras ou pubescentes. 
A página superior das folhas está coberta de pelos
Os pelos curtos e irregulares que cobrem as folhas, sobretudo na página inferior e ao longo das nervuras fazem com que se agarrem à roupa. 
Pagina inferior das folhas
Lembro-me que em criança eu e os meus companheiros quase nos “vestíamos” destas folhas, cobrindo a nossa roupa com elas. Esta característica deve-se à presença de cistólitos. Estes são pequenas estruturas (que no caso desta planta são puntiformes) existentes nas paredes das células epidérmicas das folhas e que são formados por carbonato de cálcio.
As flores são minúsculas e reúnem-se em inflorescências que se formam na axila das folhas, desde a base até ao topo dos ramos. Cada inflorescência consiste numa flor central que é feminina, rodeada por 3 ou mais flores que são hermafroditas (com órgãos masculinos e femininos). Este conjunto está protegido por brácteas pubescentes, as quais formam um invólucro em volta das flores. De início as flores apresentam-se de cor esverdeada, tornando-se avermelhadas com a maturação.
Nenhuma destas flores possui pétalas. 
As pétalas e sépalas coloridas ou perfumadas que vemos nas flores de tantas outras espécies não são produzidas em benefício da beleza mas sim porque precisam de atrair insetos polinizadores. Esses “artifícios” de que se socorrem para completar o seu ciclo reprodutivo com sucesso custam caro e são um encargo enorme em termos de energia. Ora, a Parietaria judaica prescindiu dos atavios e evoluiu no sentido de não ficar dependente dos insetos, adaptando-se à polinização pelo vento.
Assim, vejamos como se organiza esta espécie em termos de reprodução: o perianto (conjunto das peças florais que rodeiam os órgãos sexuais da flor) é formado por 4 lóbulos que formam um tubo coberto de alguns pelos finos, tubo este que é acrescente, ou seja, continua a crescer mesmo depois da fecundação. 

Estames de Parietaria judaica com as anteras brancas em evidência.
Foto de Hectonichus. Fonte Wikimedia Commons.
O androceu, ou seja a parte masculina das flores hermafroditas consiste em 4 estames que, enquanto a flor permanece fechada não têm altura suficiente pelo que são obrigados a ficar curvados dentro dela, em tensão. A emissão de pólen para a atmosfera ocorre quando a flor abre e os elásticos filamentos dos estames se endireitam bruscamente. 
Diagrama 1
O diagrama 1 mostra os estados de desenvolvimento de uma flor bissexual de Parietaria judaica.
      a) Fase de recetividade feminina com o estilete e o estigma prontos para receber o pólen lançado por outras flores para que se efetive a fecundação.
      b)  Início da fase de crescimento do perianto em que o estilete e o estigma murcham e caiem.
      c) Fase de crescimento está completa.
     d) Aliviada a tensão, os estames desenrolam-se de forma súbita libertando o pólen de forma explosiva. 

O ovário, quer nas flores hermafroditas quer nas femininas, é superior e consiste num único carpelo do qual emerge um estilete com um estigma cujo ápice é formado por vários pelos, ficando semelhante a um pincel.
As flores femininas são as primeiras a amadurecer e só depois amadurecem as flores hermafroditas. No entanto as flores hermafroditas desta espécie são protogínicas, ou seja, os seus órgãos masculinos só amadurecem depois dos femininos terem cumprido a sua parte e deixarem de estar recetivos. Desta forma a planta consegue evitar a autopolinização, apesar de que existem indícios de que tal é possível, uma vez que parece existir autocompatibilidade.
Diagrama 2

O diagrama 2 representa a sequência dos estados de desenvolvimento sexual numa inflorescência de Parietaria judaica. A recetividade dos órgãos femininos está representado a cinzento escuro e a dos masculinos está assinalado com pontilhado cinzento mais claro.
     a) Estrutura da inflorescência: uma flor feminina no centro, rodeada de 6 a 7 flores bissexuais (hermafroditas).
      b) A flor central feminina fica recetiva 3 dias antes das flores bissexuais.
   c) Quando a recetividade feminina das flores bissexuais da periferia se inicia o estigma da flor central unissexual já murchou; este processo desenrola-se em serie, de forma escalonada; a recetividade feminina de uma inflorescência dura até 6 dias.
    d) Após a fase feminina inicia-se a libertação do pólen. Esta também se processa de forma escalonada, passando de uma flor bissexual para a seguinte; o processo completa-se em 1-5 dias, dependendo das condições ambientais.

A ântese (período em que a flor está aberta) começa nas inflorescências basais e processa-se de forma gradual até chegar às flores na parte superior dos caules o que permite que os caules continuem a crescer e a formar mais inflorescências. Este padrão de crescimento possibilita, simultaneamente, o crescimento vegetativo e reprodutivo. Esta é mais uma estratégia que permite o alastramento da espécie.
Após a maturação os periantos das flores bissexuais secam e caiem, ficando debaixo da planta-mãe o que pode resultar num grande banco de sementes naquele pedaço de solo. No entanto, em solos duros e impermeáveis, estes periantos secos, ainda envolvendo as sementes, podem ser arrastados pelas chuvas e ventos fortes.
Por sua vez, os periantos secos das flores femininas e respetivas sementes ficam agarrados às brácteas do invólucro, formando uma estrutura que pode ajudar na dispersão pelo vento ou a flutuar na água.
Os pelos que cobrem os periantos e o invólucro de brácteas são uma ajuda extra na dispersão das sementes ao agarrarem-se ao pelo dos animais ou à roupa e calçado dos passeantes.
Os frutos são pequenos, ovais e brilhantes, de cor escura.
Fruto de Parietaria judaica ao centro, à esquerda brácteas do invólucro e à direita o perianto da flor.
Foto de Leo Michels (Usage:Public Domain).
Muitas vezes Parietaria judaica é confundida com a sua congénere Parietaria officinalis que é muito semelhante mas que não cresce na Península Ibérica. 
Parietaria officinalis
Foto de Franz Xaver. Fonte: Wikimedia Commons
Segundo a Flora Iberica a P. judaica distingue-se de P. officinalis por ser uma erva prostrada ou ascendente com folhas até 5 a 7 cm de comprimento e com perianto tubular até 3 ou 3,5 mm na frutificação. Por seu lado, P. officinalis é uma planta ereta,com folhas até 12 cm de comprimento e com perianto acampanulado até 2,75 ou 3 mm na frutificação.

Parietaria judaica pertence ao género Parietaria um dos cerca de 50 da família Urticaceae, uma das grandes famílias botânicas englobando com mais de 2000 espécies largamente distribuídas pelas regiões tropicais, menos comum nas zonas temperadas, registando-se a maior concentração de géneros e espécies na Ásia tropical. As espécies desta família apresentam uma notável variedade morfológica. Sob o ponto de vista taxonómico é uma família difícil, parcialmente devido ao facto de muitos dos carateres de diagnóstico necessitarem de ser observadas ao microscópio para que haja uma identificação precisa, devido ao seu tamanho diminuto. Por outro lado, muitas espécies foram originalmente classificadas com base apenas em semelhanças morfológicas o que nem sempre comprova a relação entre as espécies tendo-se registado alguns casos de homoplasias, ou seja, as características morfológicas semelhantes são coincidência, tendo surgido independentemente, não representando proximidade genética. Assim, à semelhança do que acontece com tantas outras famílias, Urticaceae tem sofrido bastantes alterações  em resultado de análises filogenéticas as quais permitem estabelecer a relação evolutiva das espécies e determinar a importância relativa dos traços morfológicos para a classificação cientifica.


Local das fotos de Parietaria Judaica da autoria deste blogue: Serra do Calvo/Lourinhã



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