"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





terça-feira, 22 de novembro de 2016

Delairea odorata Lem., syn: Senecio mikanioides Walpers

Nomes comuns:
Erva-de-São-Tiago; erva-de-santiago; 
trepadeira-do-Natal; tasneirinha-de-correr 

Foi em fevereiro passado que nos demos a conhecer, eu e a Delairea odorata. No espaço de dias, aquilo que parecia o habitual coberto de um muro de sustentação constituído por diversas espécies de heras, cobriu-se de cascatas de flores amarelas, numa explosão de cor e brilho. Até aquele dia não me tinha dado conta desta espécie trepadeira e ela já tinha vários metros de altura. Das duas uma, ou andei muito distraida ou a "plantinha" se disfarçou bem enquanto tomava conta do local.
De forma sub-repticia, germinou numa linha de escoamento de águas da chuva, a 100 metros da minha casa e, de forma determinada lá foi crescendo, apoiando-se aqui e ali nas plantas mais fortes que foi encontrando no caminho, como quem faz uma escalada. Uma coisa é certa, no ano anterior não estava lá. 
Contudo, o mais surpreendente estava para vir, quando uns dias mais tarde me deparei com nova trepadeira da mesma espécie, dissimulada na beira da sebe de heras que protege o meu jardim do vento sul do inverno. A planta nasceu fora do meu terreno, alimentada pela humidade de uma regueira que corre num nível muito inferior ao do meu muro e lá foi subindo, subindo, até chegar onde queria, para florir por entre as folhas da hera e os losangos da rede, espreitando primeiro de forma algo tímida e depois, criando ânimo, apresentando-se em toda a sua beleza e esplendor.
Esta é uma espécie exótica nativa da África do Sul mais especificamente das regiões de Natal e Cabo, onde o clima é tipicamente mediterrânico (verões quentes e secos e invernos chuvosos). Foi introduzida na Europa meridional e noutras partes do mundo nomeadamente na Califórnia, sudoeste da Austrália, Nova Zelândia, sudoeste asiático onde ocorre até cerca de 650 m de altitude. Apesar do clima do Hawaii ser mais quente que o do habitat nativo, também aí esta espécie se naturalizou, embora apenas ocorra entre os 800 e os 2000 m de altitude, onde as temperaturas são mais frescas.
Delairea odorata foi introduzida na Europa em meados do século XIX, com fins ornamentais, tendo sido incentivado o seu cultivo em jardins e estufas em função da beleza das suas florações suavemente perfumadas e também devido ao seu rápido crescimento e fácil propagação. Contudo, Delairea odorata mostrou-se traiçoeira. POssivelmente apreciadora da liberdade, depressa cortou as “amarras” e fazendo transportar a suas numerosas e leves sementes para fora dos jardins e viveiros, com a ajuda do vento, foi naturalizar-se onde melhor lhe convinha. O pior é que se verificou que não é uma planta recomendável devido à sua tendência em competir com a vegetação autóctone. 
Delairea odorata cresce rapidamente e de forma agressiva. Apesar de não ter gavinhas ou raízes aéreas facilmente encontra forma de subir até às árvores e arbustos mais altos, enrolando-se nos seus troncos e subindo de forma progressiva, privando-os de luz e em casos mais graves, sufocando-os de forma letal. Quando não encontra suporte vertical, Delairea odorata forma tapetes densos que cobrem totalmente o solo matando a vegetação nativa, não só tapando-lhes a luz solar mas também alimentando-se dos seus nutrientes e impedindo que se reproduzam por semente.
Aparentemente as sementes de Delairea odorata não têm nenhum mecanismo que lhe induza dormência pelo que germinam rapidamente, quer se encontrem à superfície ou semi-enterradas no solo e conseguem fazê-lo numa ampla gradação de temperaturas. As sementes são viáveis durante décadas pelo que os bancos de sementes desta espécie se vão acumulando no subsolo.
Encontra-se de preferência em locais húmidos como margens de linhas de água, pastagens, bosques húmidos, beira dos caminhos florestais e ambientes ruderalizados, perto de habitações.
Esta espécie invade geralmente as zonas litorais onde o clima é mais fresco e também mais húmido, o que não impede que ocorra em locais moderadamente secos ou até mesmo secos. É resistente a geadas ligeiras e existem registos da sua presença em arribas do litoral onde está exposta aos salpicos salgados da água do mar. Tanto cresce em pleno sol como na sombra e não é esquisita no que toca ao tipo de solo desde que seja fértil. É, pois, uma espécie com feitio acomodaticio e flexivel, cuja excelente adaptabilidade é a chave do seu sucesso como planta invasora.
De notar que não só altera o habitat das espécies nativas mas também afeta a vida da fauna, com especial incidência nas zonas ribeirinhas pois possui alcaloides bastante tóxicos capazes de envenenar os ambientes aquáticos. A planta também é considerada tóxica para o gado e para os humanos.
Delairea odorata é, como já vimos, uma trepadeira vigorosa, de folhagem perene, cujos caules longos e volúveis são herbáceos em quase toda a sua extensão exceto na base que é algo lenhosa. 
Os caules volúveis.
Os caules emitem ramificações que rapidamente crescem e, sendo bastante fracos e flexíveis, logo procuram suporte, enrolando-se em qualquer estrutura que encontrem à sua beira. Com o tempo tornam-se mais grossos, embora não excedendo os 10 mm de espessura. O seu aspeto é carnudo e partem-se com facilidade, enraizando com facilidade a partir do mais pequeno pedaço. Também os nós que tocam no solo criam raizes com facilidade. São verdes, por vezes avermelhados, glabros (sem pelos) e com seção cilíndrica. 
As folhas lobadas são semelhantes às da hera.
As folhas surgem na extremidade de longos pecíolos; são finas mas de aspeto carnudo com limbos de cor verde, encerado e brilhante; dispõem-se nos caules de forma alternada e estão divididas em vários lobos triangulares com a base recortada, de forma muito semelhante às folhas de hera; são fragrantes quando esmagadas. As folhas da parte superior da planta são mais pequenas que as da parte de baixo.
As florinhas reunem-se em capitulos que por sua vez constituem os corimbos.
As inflorescências de Delairea odorata são corimbos muito densos que surgem na axila das folhas na extremidade dos ramos e que são constituídos por numerosos capítulos (de 15 a 50). 
Aqui, as flores ainda estão fechadas o que nos permite observar as brácteas que formam
 o invólucro e as bractéolas abaixo dos invólucros.
As 8 a 12 florinhas que formam cada capítulo inserem-se num recetáculo em forma de disco, formando um conjunto que é protegido por umas 8 a 10 brácteas de cor verde que formam um invólucro cilíndrico com metade do tamanho das flores. Na base do invólucro existem 2 (por vezes 4) bractéolas, também de cor verde e que são características desta espécie e por conseguinte, importantes para a sua identificação. 
As florinhas abertas apresentando os bordos lobados e os braços estigmaticos aguardando pelo polen
As florinhas, de um amarelo brilhante são afuniladas, com corolas em forma de tubo com bordos divididos em 5 lobos revirados para fora. Ao contrário de muitas outras espécies da mesma família (Asteraceae) as florinhas de Delairea odorata não têm lígulas, semelhantes a pétalas. Todas as flores são perfeitas, ou seja, estão equipadas com órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os filamentos dos estames são um pouco mais compridos que as corolas e juntamente com as anteras formam uma espécie de cone. Emergindo do ovário, o estilete é filiforme e termina num estigma com dois braços, distintamente salientes e cujas extremidades são truncadas e divididas em segmentos filamentosos paralelos e muito finos formando uma espécie de franja. Curiosamente, o estilete e os estames desta espécie estão unidos na base, formando uma coluna comum, separando-se apenas na parte superior. 
As flores são suavemente perfumadas o que justifica o epiteto especifico de odorata. 
As flores são polinizadas por insetos, não havendo registo de autopolinização. De facto esta é uma espécie protândrica, ou seja, as anteras amadurecem antes dos órgãos femininos. Acontece que as anteras abrem e libertam o polen enquanto as florinhas ainda estão fechadas mas a autopolinização nesta fase parece pouco provável porque os estigmas ainda estão unidos e mantêm-se muito apertadinhos dentro da corola fechada. A polinização acontece apenas depois que o estilete se tiver alongado para um nível superior ao das anteras, altura em que se divide em dois braços, expondo a superfície estigmática que é recetiva ao pólen trazido de outras plantas pelos insetos.
Cada florinha de cada capitulo se transforma numa semente com a sua coroa de pelos fofos, o papilho
Depois de polinizadas as flores dão origem a inúmeros frutos denominados cipselas e que são constituídos por uma semente quase cilíndrica e uma coroa de pelos denominada papilho.
Semente e papilho
Impulsionado pelo vento, o papilho ajuda a semente a viajar longas distâncias, numa ou mais viagens de parapente.
 
Distribuição de Delairea odorata em Portugal continental. Fonte.
Em Portugal Delairea odorata distribui-se pelo litoral norte e centro do território continental, na ilha da Madeira e na maioria das ilhas dos Açores. Geralmente floresce durante o inverno, entre os meses de janeiro e março.
A forma mais efetiva de evitar a sua dispersão é o arranque manual, tendo o cuidado de descartar em local próprio todos os pedaços da planta, pois ela não se reproduz só por semente, mas também vegetativamente. Qualquer segmento de caule que caia no chão ou seja transportada pela água, tem boas probabilidades de enraizar. Não deve, pois, ser adicionada aos resíduos de jardim.
O método mais utilizado na sua erradicação inclui produtos químicos, os quais são nocivos para a fauna e flora e que cada vez são menos eficazes no seu objetivo pois as plantas vão criando resistência aos químicos, embora continuem a poluir o ambiente.
Nos últimos anos têm sido estudados métodos de controlo biológico que não degradem ainda mais o ambiente. Foi proposto utilizar-se a traça (Digitivalvadelaireae) e a mosca (Parafreutretaregalis), inimigos naturais da planta na Africa do sul e que poderão causar grande dano comendo as folhas de Delairea odorata, minando os caules e neles colocando o seus ovos. Nos Estados Unidos, nomeadamente no estado da Califórnia, que é o estado mais atingido, foi já  autorizada a largada da traça acima referida, pela USDA-APHIS Technical Advisory Group on Biological Control of Weeds.  

Delairea odorata pertence à família Asteraceae, a maior das famílias botânicas de plantas de flor. Esta planta em particular está muito relacionada com o género Senecio no qual já esteve incluída com o nome Senecio Mikanioides, classificação que muitos continuam a usar. No entanto esta espécie foi transferida para o género Delairea do qual é a única representante. A principal característica que a diferencia de Senecio são as bractéolas que se situam na base do invólucro. 

No que diz respeito à taxonomia esta espécie tem um historial muito confuso devido à sua publicação quase simultânea por dois autores diferentes. 
A primeira descrição cientifica da planta e da sua inclusão no género Delairea Lem. foi publicada em 1844 por Lemaire que a descreveu como “espécie distinta diferindo de parentes próximos pelo papilho unisseriado, capítulos com flores todas hermafroditas, etc”.
Em 1845 Walpers publicou a descrição de uma planta largamente cultivada na Alemanha (só posteriormente  se percebeu que era a mesma a que se referia Lemaire) e que ele denominou Senecio mikanioides Otto ex Walpers ou Senecio mikanioides Wapers, mencionando que já se lhe tinha referido numa anterior publicação, embora sem carater formal. 
Numa publicação posterior, a planta foi confirmada no género Senecio por Harvey (1894). Mais recentemente, em 1986 e também em 1992 o botânico Jeffrey publicou varias revisões do género Senecio, tendo voltado a incluir a planta no género Delairea com o nome cientifico Delairea odorata Lem., baseando-se na forma acampanulada do limbo da corola e outras características morfológicas. Entretanto, cada vez mais taxonomistas se põem de acordo com a nova classificação. Apesar disso, nota-se ainda uma grande habituação ao nome antigo, o que não é de estranhar.

Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt
(exceto quando especificada outra fonte).

Fotos:Serra do Calvo/Lourinhã

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Erigeron karvinskianus DC.

Nomes comuns: 
Vitadínia-das-floristas, intrometidos, floricos, margaridas, teresinhas, margacinha

Erigeron karwinskianus
O tema de hoje vem na sequência do “post” anterior no qual foi feita referência ao género Erigeron e à sua estreita relação familiar com o género Conyza. Conforme então mencionado, varias espécies foram transferidas de Erigeron para Conyza. Apesar de terem mantido os nomes científicos anteriores como sinónimos, tais alterações implicaram um acentuado emagrecimento no género Erigeron, sobretudo no que diz respeito às espécies que ocorrem em Portugal. De facto, o género Erigeron é, agora, muito pouco representado no nosso território, limitando-se a uma rara espécie nativa Erigeron acris e a uma exótica, a belíssima mas proscrita Erigeron karvinskianus.
Erigeron karwinskianus
Esta espécie exótica é nativa do México, Honduras, El Salvador e Guatemala onde ocorre em regiões montanhosas desde os 900 até aos 3500 metros de altitude. No seu habitat natural ela cresce principalmente nas encostas íngremes, penhascos ou fendas de rochas, abundante tanto em florestas húmidas e cerradas como em terreno descoberto. Contudo, esta é uma espécie generalista, isto é, tolera uma vasta gama de condições ambientais e edáficas o que ajudou à sua proliferação.
Erigeron karwinskianus
Hoje em dia encontra-se amplamente naturalizada nas regiões de clima subtropical e temperado de todo o mundo, crescendo em qualquer lugar onde o vento deposite as suas pequenas sementes, nomeadamente em muros, rachas do solo, entre as pedras da calçada, bosques, charnecas, beira dos caminhos, margens dos cursos de água e dunas.
Erigeron karwinskianus
Especialmente apreciada pelas suas qualidades decorativas foi introduzida na América do norte e do sul, China, Índia, Europa, África e Oceânia, largamente comercializada como planta ornamental de exterior, proporcionando grandes proventos a cultivadores e viveiristas. Escapando dos jardins graças às suas numerosas e leves sementes, depressa se aclimatou em liberdade, tornando-se invasiva em territórios fora do seu habitat nativo, reproduzindo-se e espalhando-se rapidamente, formando tapetes densos e abafando as plantas autótones. 

Erigeron karwinskianus
O problema maior tem-se registado em ilhas oceânicas onde o índice de endemismos é mais elevado. Entre os casos mais conhecidos contam-se as ilhas tropicais dos oceanos Índico (ex: Ilhas de Reunião) e Pacífico (ex: Hawaii), e também na Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. É por essa razão que faz parte da lista negra de espécies de maior risco invasor nessas regiões. 
Erigeron karwinskianus
Embora demonstre um comportamento menos agressivo na Europa, sobretudo nos países mais frios do norte (ex Suécia)  é, ainda assim, considerada uma espécie com potencial comportamento invasor em vários países, como a Espanha, a Itália, Reino Unido, França, Alemanha e Holanda, entre outros. Apesar disso, Erigeron karvinskianus é uma planta muito apreciada e por isso continua a ser cultivada e a gerar importantes receitas no comércio das plantas ornamentais. Em muitos países a planta é comercializada sem restrições e as suas sementes  publicitadas e disponibilizadas através da internet.
Erigeron karwinskianus
Alguns países (embora poucos) colocaram esta espécie na sua lista negra, como é o caso de Portugal, publicando leis que proíbem a introdução da espécie, o seu cultivo e o comércio (anexo I do Decreto-Lei n° 565/99, de 21 dezembro). Devo dizer que não me foi possível conseguir dados estatísticos que me permitam saber qual o grau de invasão desta planta em Portugal continental. Quanto às ilhas, regista-se uma tendência invasora sobretudo nos Açores, o que já de si é muito preocupante. Assim, tudo me leva a crer que a proibição do comércio e cultivo é uma acertada medida, considerando os riscos inerentes e tomando como exemplo dezenas de outras espécies invasoras que a pouco e pouco vão invadindo os nossos espaços naturais. É que, por muito belo que seja o efeito que proporciona a um canteiro, uma espécie exótica acarreta muitos perigos, podendo causar a extinção de espécies nativas que são importantes para o equilíbrio ambiental. Pode ler mais AQUI sobre as plantas invasoras.

De notar que Erigeron karvinskianus não é invasora nas regiões de onde é nativa (Mexico, Honduras, El Salvador e Guatemala) vegetando em perfeito equilíbrio com os ecossistemas naturais e onde os seus inimigos naturais a mantêm dentro dos limites saudáveis.
Mapa de distribuição de Erigeron karwinskianus na Península Ibérica a que correspondem 114 registos.
 Fonte Sistema Anthos
Erigeron karvinskianus é uma planta perene mas de vida relativamente curta. As raízes são fibrosas do tipo rizomatoso. O seu porte é baixo e forma moitas alargadas e densas devido aos emaranhamento dos caules. 
Erigeron karwinskianus
Os caules são numerosos, ramificados, finos e prostrados ou ascendentes, com alguns pelos esparsos, não ultrapassando os 40 ou 50 cm de comprimento. Apesar do seu aspeto frágil são resistentes e com a idade tornam-se sublenhosos na base.
Erigeron karwinskianus
As folhas soltam uma suave fragrância quando esmagadas. São pequenas e ligeiramente pubescentes. As primeiras folhas formam uma roseta basal, são recortadas formando 3 lóbulos e morrem logo que surgem os primeiros caules. As folhas caulinares apresentam forma obovada ou elíptica, com margem inteira ou com algum dente terminal. O pecíolo é curto ou inexistente.
Erigeron karwinskianus
As flores reúnem-se em capítulos bem pequeninos, com menos de 1 cm de diâmetro, os quais se inserem na extremidade de compridos e finos pedúnculos. Os capítulos são do tipo radiado, semelhantes a malmequeres. 


Apesar de ter capítulos de um tamanho bastante mais pequeno que a maioria das espécies do tipo malmequer, Erigeron karwinskianus é, ainda assim, muitas vezes confundida com outras espécies da mesma família, como por exemplo Bellis sylvestris, uma espécie autóctone cujas inflorescências e folhas são maiores e de floração menos exuberante.
Erigeron karwinskianus
As flores centrais têm cor amarela, forma tubular e estão equipadas com órgãos reprodutores masculinos e femininos; as flores periféricas são femininas e estão providas de hemilígulas (lígulas mais estreitas) de cor branca, que após a ântese e respetiva polinização se vão tornando progressivamente rosadas, uma informação útil para os insetos que assim ficam avisados que as flores já estão fecundadas, já nada tendo para lhes oferecer. 
Erigeron karwinskianus
As brácteas que formam o invólucro são linear-lanceoladas, de cor verde, manchadas de castanho e com margens membranosas. 
Erigeron karvinskianus floresce praticamente durante o ano inteiro mas com maior abundância de fevereiro a novembro. 
Erigeron karwinskianus
Nesta foto pode ver-se o disco que serviu de receptáculo às flores e segurou os frutos até à maturação. Alguns  frutos (denominados cipselas) ainda estão agarrados ao disco,  notando-se os pelos compridos que constituem o papilho. Também se notam os restos das brácteas involucrais que nesta espécie permanecem até à maturação.
Os frutos são cipselas, com papilho de pelos compridos e acastanhados muito pequenos e facilmente levados pela brisa.

O género Erigeron a que pertence a espécie Erigeron karvinskianus, é um dos muitos que compõem a família das Asteraceae, também denominada Compositae, vulgo compostas, nome que, como já sabemos, refere a forma composta como se organizam as inflorescências características da família. É um género bastante cosmopolita mas predomina nas regiões temperadas. Erigeron inclui atualmente cerca de 200 espécies das quais cerca de metade são nativas do América do norte. Segundo alguns autores, o seu centro de diversidade primário e de origem evolucionária encontra-se na faixa ocidental da América do norte e México enquanto os centros de diversidade da América do sul, Cáucaso, Alpes, Himalaias e Ásia oriental são considerados secundários. Taxonomicamente é um género muito difícil, situação partilhada por quase todos os géneros desta família que é tão complicada, devido à sua enorme riqueza e diversidade.

A primeira amostra de Erigeron karvinskianus trazida para a Europa (entre 1827 e 1832) foi recolhida no México. Esta espécie foi inicialmente descrita pelo botânico francês Augustin P. de Candolle (DC) em 1836 e o nome especifico homenageia o naturalista e coletor de plantas alemão W. Friedrich von Karwinsky. Desde então, muitos sinónimos foram atribuídos a esta espécie como por exemplo Erigeron mucronatus, o qual é ainda muitas vezes usado.
Os primeiros registos de naturalização de Erigeron karvinskianus em França datam de 1856, mas depressa alastrou a outros países europeus. Por volta de 1878 já estava em Portugal. Foi registada no norte da Itália em 1900, na Suíça em 1920 e nas ilhas do Canal da Mancha em 1925. Os primeiros registos da sua presença na Austrália datam de 1908 e em 1911 estava no Hawaii. Na Nova Zelândia e Japão os registos são mais recentes, respetivamente de 1940 e 1949.

Erigeron acris subespécie acris

Além da espécie exótica Erigeron Karvinskianus existe em Portugal mais uma espécie do género, a Erigeron acris a qual goza de um estatuto diferente, pois é uma espécie nativa europeia e que se pode encontrar desde o mediterrâneo até aos países nórdicos. Esta é uma espécie muito variável, do que resulta divisão da espécie em diversas subespécies, com descrições e características nem sempre consistentes nas diversas floras europeias.

Erigeron acris subsp acris.
Foto de Kristian Peters . Fonte Wikimedia commons.
Erigeron acris subespécie acris é autóctone em Portugal continental (inexistente nas ilhas) mas parece ser rara, havendo poucos registos da sua existência. Vulgarmente, é conhecida como erva-dos-coelhos ou erva-dos-velhos. 

Erigeron acris subsp acris.
Foto de Kristian Peters. Fonte Wikimedia Commons.
É uma planta bienal, rasteira (dos 10 aos 40 cm de altura), de caules eretos e ramificados, densamente peludos, assim como as folhas. Nas inflorescências as flores da periferia apresentam lígulas estreitas de cor branca ou rosa, as flores interiores são amareladas e tubulares. Cresce principalmente em terrenos arenosos, ou nas rachas dos terrenos rochosos.
Erigeron acris subsp acris. 
Foto de Matti Virtala. Fonte Wikimedia Commons.

Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt 
(exceto quando especificada outra fonte). 



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Conyza Less.

As avoadinhas e o género Conyza

Conyza bonariensis
O verão continua quente e seco, tipicamente mediterrânico. Por esta altura, são já poucas as ervas que, na beira dos caminhos e campos abertos não irrigados, ainda se mantêm verdes. A maioria das espécies de verão já floriu e gerou sementes, tomando agora a cor de palha tão característica das paisagens de fim de verão. Mas como diz o povo, o que para muitos é fel, para outros é mel, e assim, as avoadinhas, amantes de lugares áridos e ensolarados, estão como querem. Importadas de climas do tipo tropical seco, estas plantas, que tão bem se adaptaram a climas mais suaves, estão agora bem felizes e verdinhas, em plena floração. Também as ajuda o facto de não agradarem ao paladar de cabras e ovelhas. 
Conyza bonariensis
As vulgarmente denominadas avoadinhas pertencem ao género Conyza e à família Asteraceae. O nome do Conyza terá sido inspirado no nome específico de uma planta de outro género, mas da mesma família, cujos capítulos sugerem semelhança entre as duas, a Inula conyza.
Campo agrícola em Serra do Calvo/Lourinhã, após a colheita, infestado com Conyza bonariensis e Conyza sumatrensis. Grande parte dos milhares de sementes gerados  por estas plantas serão levados pelo vento e irão colonizar outras paragens. Quanto às sementes que ficarem aqui, na sua maioria serão temporariamente neutralizadas se o terreno for lavrado, enterrando-as. Apenas as sementes que ficarem à superfície germinarão, pois a luz é condição essencial para que o processo se inicie.
Do género Conyza fazem parte cerca de 60 espécies, maioritariamente nativas de climas tropicais e subtropicais do continente americano. Um certo número destas espécies "viajaram" para outros continentes, tornaram-se colonizadoras cosmopolitas,  muitas vezes invadindo agressivamente as culturas agrícolas em muitas partes do mundo, gerando graves prejuízos, sobretudo as culturas de nível intensivo em que se incluem culturas forrageiras, soja, algodão, milho e outras. A capacidade de adaptação e sobrevivência destas espécies é notória, com especial destaque para a sua adquirida resistência a herbicidas. O estudo da ecologia das plantas invasoras é, pois, muito importante na medida em que o conhecimento mais detalhado da sua demografia e dinâmica populacional permite desenvolver e avaliar novas estratégias de controlo dos fatores invasivos.
Conyza sumatrensis
O aspeto inconspícuo das Conyza parece descartar a possibilidade de terem sido importadas com fins ornamentais. Assim, à semelhança do que aconteceu com tantas outras herbáceas, foram, muito provavelmente, levadas para outras partes do mundo de forma involuntária, misturadas com sementes de cereais ou escapando dos jardins botânicos. Também existe a possibilidade de terem sido levadas por razões terapêuticas pois no seu local de origem eram utilizadas em medicina tradicional. O certo é, que são neófitos recentes, tendo sido introduzidas na Europa entre os séculos XVII e XX.
Conyza bonariensis
São espécies ruderais que se estabelecem em áreas perturbadas e de solos nitrificados, crescendo na beira dos caminhos, dunas, espaços urbanos e em qualquer pequena brecha dos pavimentos.
Conyza sumatrensis
São infestantes de jardins, campos agrícolas, pomares, vinhas e pastagens, sendo mais abundantes em solos não cavados ou lavrados. Isto acontece porque as sementes de Conyza necessitam de luz para germinar. Ora, em solos não trabalhados as sementes permanecem à superfície prontinhas para brotar, ao passo que num terreno lavrado muitas das sementes ficam impossibilitadas de o fazer por ficarem enterradas.

Em Portugal regista-se a ocorrência de 4 espécies do género Conyza, nomeadamente Conyza bonariensis, Conyza canadiensis, Conyza sumatrensis e Conyza bilbaoana. (listadas como invasoras no anexo I do Decreto-Lein° 565/99, de 21 dezembro). Todas elas florescem praticamente durante todo o ano, com especial incidência durante os meses de primavera e verão, dando-se bem em lugares áridos e ensolarados.

Conyza é um género bastante complicado, tendo sido durante muito tempo considerado uma seção do género Erigeron, com o qual partilha algumas semelhanças. A situação assim se manteve até que, em 1943, o botânico americano Arthur Cronquist (especialista em tudo o que se refere à família Asteraceae/Compositae e mentor de um novo sistema de classificação botânica das angiospermas - Sistema Cronquist) redefiniu os limites entre os dois géneros e deu honras de género autónomo a Conyza. Este distingue-se de Erigeron primordialmente pelo seu maior número de flores pistiladas (só com órgãos femininos) as quais, devido à ausência de estames se tornaram filiformes. Adicionalmente, em Conyza as flores do interior do disco são menos numerosas, com corolas mais curtas ou inexistentes e os papilhos são acrescentes (continuam a crescer depois da fecundação até o fruto atingir a maturação). As inflorescências densas com capítulos cilíndricos de algumas espécies de Conyza, também não são características de Erigeron. Contudo, estudos recentes que sustentam a origem americana do género Erigeron consideram que o Conyza evoluiu a partir deste (Noyes, 2000). Pelo contrário, Nesom (2008) considera que Conyza é um género completamente separado de Erigeron
De onde se conclui, que a sistemática das espécies incluídas em Conyza ainda não é suficientemente compreendida. Faltam muitos estudos até que se possa chegar a um consenso, se é que tal alguma vez possa acontecer. É que, os tratamentos usados do outro lado do Atlântico diferem dos usados na Europa, levando a conclusões diferentes, pelo que fica tudo um bocado confuso, com múltiplas reclassificações e numerosos sinónimos no historial das espécies.

As espécies do género Conyza que chegaram à Europa são difíceis de distinguir, uma vez que apresentam características morfológicas muito semelhantes. Além de que, sendo compatíveis e podendo ocorrer ao mesmo tempo nos mesmos habitats, elas facilmente hibridizam entre si, apresentando características intermédias, o que torna a identificação ainda mais difícil.
Vejamos algumas das características das espécies que podemos ver em território português:
Conyza bonariensis (L.) Cronquist
Sinónimos: Erigeron bonariensis L., Erigeron linifolius Willd., Leptilon bonariense (L.) Small, Leptilon linifolium (Willd.) Small

Nomes comuns:
Aboadeira; avoadinha; avoadinha-peluda; erva-pau; raposa; erva-da-esforrica

Conyza bonariensis
Dentro do género Conyza, a espécie bonariensis parece ser uma das mais conhecidas. É nativa da América do Sul e foi provavelmente introduzida na Europa no século XIX, tendo-se rapidamente expandido e naturalizado nos países mais quentes do sul. O termo específico bonariensis coloca a sua origem na região de Buenos Aires, capital da Argentina, onde é muito abundante, assim como no Uruguai, Paraguai e Brasil.

Em Portugal ocorre com frequência em todo o território continental, assim como em todas as ilhas do arquipélago dos Açores e ilhas da Madeira e Porto Santo, apesar do que é pouco conhecida.  Consulte o mapa de ocorrencias em Portugal continental AQUI 

Conyza bonariensis
É uma planta anual, herbácea, de porte ereto e raiz aprumada. Toda a planta apresenta um tom verde-acinzentado que se deve aos pelos suaves e curtos que a cobrem. 
À semelhança do que acontece com as outras espécies do género Conyza, as primeiras folhas de Conyza bonariensis dispõem-se em roseta.
Caule de Conysa bonariensis do qual foram retiradas algumas folhas, para melhor observação.
Os caules têm consistência semilenhosa, são cilíndricos e apresentam estrias longitudinais; podem atingir alturas variáveis, desde os 20 cm a mais 60 cm, dependendo das condições edáficas disponíveis e do seu grau de desenvolvimento. 
Conyza bonariensis mostrando as ramificações laterais sobrepassando o eixo.
Os caules podem ser simples ou apresentar ramificações, basais ou laterais. Muitas vezes e de forma característica as ramificações laterais são mais compridas que o caule principal. 
Conyza bonariensis - folhas
As folhas são sésseis e emergem de forma alternada em grupos de 3 a 6 folhas cada, formando um angulo agudo com o caule. O comprimento das folhas de cada grupo é variável, notando-se uma folha maior entre outras mais pequenas. As folhas podem ser lisas ou onduladas; as basais são de forma linear/lanceolada com margens dentadas enquanto a maioria das folhas caulinares são simplesmente lineares com margens quase lisas. As folhas apresentam indumento em ambas as páginas, o que lhes dá um tom glauco.
Capítulos de Conyza bonariensis, revelando as florinhas aconchegadas dentro dos invólucros.
As flores agrupam-se em inflorescências do tipo capítulo. Como sabemos, o capítulo é a inflorescência distintiva das plantas da família Asteraceae. Caracteriza-se por se assemelhar a uma única “flor” embora seja composto por muitas flores de tamanho reduzido, agrupadas de uma forma muito compacta dispostas diretamente sobre um recetáculo em forma de disco. Usando estratégias de baixo custo energético para a planta, estes capítulos são muito eficazes na atração dos insetos e ainda conseguem obter vantagens competitivas que se traduzem numa maior produção de sementes. De forma geral, uma dessas estratégias passa pela apresentação de lígulas, semelhantes a pétalas, em cuja formação apenas algumas flores estão envolvidas enquanto as restantes concentram todas as suas energias na produção de sementes. 
Capítulos de Conyza bonariensis
Contudo, ao contrário da maioria das espécies de Asteraceae, as flores dos capítulos de Conyza bonariensis não apresentam ligulas (pétalas). Por isso não são realmente vistosos, nem apelativos para os insetos, tendo a espécie prescindido dos atavios que atraem os polinizadores porque na realidade não precisam deles. 

Capítulos de Conyza bonariensis
A verdade é que as espécies Conyza, de forma pragmática e autossuficiente, optaram por praticar a autopolinização. Assim, a planta leva ao extremo a sua estratégia de poupança, direcionando todas as suas energias para a produção de sementes. Durante toda a sua vida as florinhas de Conyza bonariensis mantêm-se encerradas no conforto dos invólucros os quais, à primeira vista, se assemelham a flores em botão. 
Capítulos de Conyza bonariensis
Os invólucros apresentam forma oval ou campanulada e são constituídos por numerosas e finas brácteas de cor verde, por vezes tingidas com laivos púrpura, que se sobrepõem em 3 a 5 séries. A parte superior de cada invólucro é rodeada por um anel de cerdas brancas bem apertadinhas que correspondem às sépalas (que formam o cálice e rodeiam cada pequena flor) as quais se modificaram apresentando-se extremamente ramificadas em filamentos retos e que mais tarde, na frutificação, se soltarão para formar o papilho. 
As pequeníssimas e inconspícuas flores têm corolas com lobos triangulares de cor esverdeada ou amarela; as flores centrais são tubulosas e perfeitas (vulgarmente denominadas hermafroditas por disporem de órgãos reprodutores masculinos e femininos) e as periféricas são mais estreitas (filiformes). Esta forma filiforme está relacionada com a ausência de estames, sendo por isso denominadas pistiladas (femininas). Os invólucros de Conyza bonariensis são densamente peludos.
Conyza bonariensis: na maturação do fruto as brácteas do invólucro abrem e as cerdas que formam os papilhos expandem e preparam-se para a viagem que levará as sementes nas asas do vento, para o mais longe que conseguirem.
A maturação dos frutos, designados por cipselas e formados por uma única semente, ocorre em media 3 semanas após a fertilização. 
Conyza bonariensis - as brácteas abrem e os papilhos abrem parecendo pompons
Entretanto, à medida que o fruto se desenvolve, as cerdas do papilho ficam mais soltas, abrem como um harmónio e formam uma estrutura fofa e plumosa que se torna mais vistosa que a própria flor. 
Conyza bonariensis - os frutos soltam-se do recetáculo
Ligadas às cerdas do papilho estão as sementes, muito pequenas, oblongas, comprimidas, estriadas em ambas as faces, com pelos poucos densos. 
Conyza bonariensis - Fruto com uma única semente e papilho
Os leves filamentos que formam o papilho ou pappus fazem com que as sementes flutuem ao sabor do vento como um paraquedas, ajudando assim, na sua dispersão para longas distâncias.

Conyza bonariensis parece possuir propriedades terapêuticas, sendo utilizada em medicina alternativa, sobretudo nos seus países de origem, como diurética, hemostática e antidiarreica.

Conyza sumatrensis (Retz.) E. Walker
Sinónimos: Conyza albida Sprengel, Conyza albida Willd. Ex. Spreng. , Erigeron floribundus (Kunth) Sch.Bip«ufxy, Erigeron sumatrensis Retz

Nomes comuns
Avoadinha-marfim, avoadeira, avoadinha-branca-de-pelos-compridos

Conyza sumatrensis
Esta espécie é nativa da América do sul e em Portugal ocorre um pouco por todo o território continental e também na ilha da Madeira. Confira AQUI o mapa das ocorrências em Portugal continental.
Foi trazida para França na segunda metade do seculo XIX, havendo registos desta planta no Jardim Botânico de Collioure que datam de 1878, de onde as suas sementes leves e argutas escaparam, expandindo-se através da França para Espanha, Portugal e Norte de África, nos inícios do século XX. Os primeiros registos fiáveis da sua presença em Itália datam de meados do século passado e mais recentemente a planta foi registada em países do leste mediterrânico como a Croácia, Grécia, Albânia e ainda na Áustria. Assim, a sua expansão continua de "vento em popa", literalmente.
Conyza sumatrensis (à esquerda) e Conyza bonariensis (à direita)
Conyza sumatrensis cresce nos mesmos habitats de C. bonariensis com a qual tem grandes semelhanças morfológicas e ecológicas, como por exemplo brácteas involucrais e folhas densamente peludas. No entanto podemos distinguir estas duas espécies a partir de algumas particularidades.
Conyza sumatrensis apenas ramifica na metade superior e os ramos laterais são mais curtos que o eixo .
C. sumatrensis tem maior porte, podendo chegar aos 200 cm de altura, ramificando-se apenas na parte superior do caule, sendo que os ramos laterais são mais curtos que o caule principal.
Conyza sumatrensis - folhas
C.sumatrensis também apresenta maior número de folhas as quais são maiores, mais largas e com nervuras bem marcadas.
Comparação: capítulos de C.sumatrensis (à esq.) e de C.bonariensis (à dta)
As inflorescências de C. sumatrensis são mais abundantes embora os capítulos sejam de menor tamanho e de formato rômbico.
Outra diferença entre as duas espécies referidas tem a ver com as florinhas dos capítulos. Na espécie C.sumatrensis as corolas das flores femininas periféricas são zigomórficas (com simetria bilateral) enquanto em C.bonariensis todas as florinhas têm corolas actinomórficas (com simetria radial).
Papilhos de Conyza sumatrensis
Os papilhos das cipselas de C. sumatrensis apresentam um tom mais escuro e menos vistoso.

Conyza sumatrensis é também uma erva medicinal, sendo tradicionalmente usada no tratamento das mais diversas maleitas, dependendo da região da Terra, nomeadamente acne, micoses, asma, tuberculose, distúrbios digestivos, paralisia, epilepsia, espasmos e convulsões. Estudos recentes ainda em fase inicial, detetaram nesta espécie, atividades antimicrobianas e também antimalária.

Conyza canadensis (L.) Cronq.
Sinónimos: Erigeron canadensis L., Erigeron pusillus Nutt., Trimorpha canadensis (L.) Lindm.

Nomes vulgares
Avoadinha, avoadinha-do-Canadá, avoadeira
Conyza canadensis
Foto Wikimedia commons
Conforme o nome científico sugere, é nativa da América do norte mas encontra-se globalmente naturalizada. Foi provavelmente a primeira espécie do género a ser trazida para a Europa, no seculo XVII. Crê-se que no seculo XIX já se encontrava naturalizada na generalidade dos países europeus do sul.
As plantas desta espécie podem atingir os 150 cm de altura. Distinguem-se facilmente das suas congéneres pois a flores do capítulo são mais vistosas. Embora peluda quando jovem, a Conyza canadensis vai perdendo os pelos com a maturação. As folhas ficam com pelos apenas nas margens e na nervura central inferior, ao passo que as brácteas que formam o involucro se tornam glabras ou quase. 
Conyza canadensis
Foto de Rasbak. Fonte Wikimedia commons
Mas, a principal característica que a distingue das outras, são as flores periféricas dos capítulos as quais apresentam lígulas bem visíveis, de cor branca. As flores tubulosas do interior são amarelas e apresentam corolas com 4 lóbulos.
Conyza canadensis
Foto de Rasbak. Fonte Wikimedia commons
Naturalizada em Portugal, Conyza canadensis ocorre um pouco por todo o território continental, em todas as ilhas dos Açores e também na ilha da Madeira.

As suas propriedades terapêuticas são reputadas em alguns meios. Veja AQUI o seu perfil farmacológico

Conyza bilbaoana J.Rémy

Sinónimos: Conyza floribunda Kunth, Conyza bonariensis var. (S.F.Blake) Cuatrec.

Conyza bilbaoana
Foto de Gordon Leppig & Andrea J. Pickart
Fonte Wikimedia commons
Conyza bilbaoana é uma espécie intermédia entre C. sumatrensis e C.canadensis, embora seja nitidamente diferente de ambas.
(Já vimos que que C. sumatrensis tem brácteas involucrais peludas e aspeto geral acinzentado devido à elevada densidade de pelos que cobrem tanto o caule como as hastes florais e que C.canadensis é geralmente mais graciosa devido ao seu menor tamanho, moderadamente pubescente, com folhas caulinares inteiras ou ligeiramente dentadas e com capítulos com flores periféricas nitidamente liguladas).
Conyza bilbaoana
Foto de Malcolm Storey licensed under Creative Commons
Conyza bilbaoana é uma planta de porte robusto com caules de 150 cm ou mais, cobertos de pelos compridos de forma mais ou menos densa. As folhas, de recorte pronunciado, têm margens ásperas devido à presença de pelos mais rígidos que também podem surgir na nervura mediana inferior.
As inflorescências são densas e em forma piramidal, em geral com capítulos rômbicos, com florinhas internas com 5 lóbulos e florinhas periféricas sem lígulas ou com lígulas inferiores a 0,5 mm. 
Conyza bilbaoana. Roseta basal
Foto de Saxifraga-Rutger Barendse
Conyza bilbaoana
Foto de Foto de Malcolm Storey licensed under Creative Commons
As brácteas do invólucro são glabras, embora com alguns pelos esparsos.
Existem poucos registos sobre esta espécie, de provável origem sul-americana. Surpreendentemente esta espécie tem sido negligenciada, possivelmente devido aos problemas taxonómicos resultantes da confusão com outras espécies e possíveis híbridos. Sabe-se, no entanto, que já se encontra dispersa pelo sudoeste de França e norte da península Ibérica, incluindo noroeste de Portugal, espectando-se que se dirija rapidamente para os territórios do sul. É, pois, uma espécie em vias de expansão e poder invasivo que pode vir a suplantar as restantes espécies do género.

Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt

(exceto quando especificada outra fonte). 

Fotos de Conyza bonariensis e Conyza sumatrensis: 
Vale de Adares, Serra do Calvo e Zambujeira /Lourinhã