"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Xanthium spinosum L.

Nomes comuns:
Pica-três, bardana-espinhosa, arzola, gatinho


Quando voltamos de um passeio de verão pelo campo, são grandes as hipóteses de trazermos para casa a tarefa incomoda de arrancar pequenas sementes e folhas que se agarraram tenazmente às meias e aos atacadores dos sapatos de ténis. 
Ganchos, espinhos ou outros "apetrechos" permitem que pequenas sementes se agarrem a tudo o que passa perto. São intencionais e fazem parte das estratégias de que se socorrem certas espécies para se fazerem transportar à boleia para longe da planta-mãe, conseguindo assim iniciar novas colónias. Nesta perspetiva uma das plantas mais irritantes é Xanthium spinosum, uma sobrevivente por excelência que, a pouco e pouco, vem conquistando lugar privilegiado no mundo.


Xanthium spinosum é muito fácil de identificar. 
É uma planta anual, robusta e de tamanho médio, podendo atingir os 90 cm de altura. Os seus caules são eretos ou ligeiramente curvados, rígidos e muito ramificados. 

A seta assinala os espinhos tripartidos que nascem na axila das folhas
Os caules são de cor verde-claro, com um indumento de pelos fracos e densos. Quando jovens os caules são herbáceos tornando-se, depois, algo lenhosos. De forma característica, os caules projetam longos espinhos tripartidos de cor amarelada que nascem nos nós da axila das folhas.


As folhas dispõem-se de forma alternada e ligam-se ao caule através de pecíolos curtos ou são quase sésseis. As folhas são relativamente estreitas, com forma lanceolada ou elíptica e são profundamente recortadas; as inferiores são muito irregulares com cinco lóbulos, sendo o lóbulo médio muito maior que os restantes; as folhas superiores são bastante mais alongadas dado que os lóbulos medianos podem ser insignificantes ou ausentes. 


A página superior das folhas é de cor verde-escuro brilhante, com pelos fracos e ralos, mais densos nas nervuras proeminentes e de cor clara; as páginas inferiores apresentam cor esbranquiçada devido à cobertura de pelos curtos e densos, enrolados sobre si próprios.
Este é o capitulo que podemos observar em muitas das espécies da família Asteraceae
mas não é o caso de Xanthium spinosum, como veremos no texto.

Esta espécie está incluída na família Asteraceae/Compositae, no entanto, as flores e os frutos são muito diferentes da generalidade das espécies deste grupo. A maior diferença reside no facto de Xanthium spinosum produzir capítulos de flores unissexuais ao contrário dos habituais capítulos de flores bissexuais.
A principal característica das Asteraceae são os capítulos, em que as flores minúsculas estão inseridas num recetáculo em forma de disco e separadas por pequeníssimas brácteas, estando este conjunto envolvido por um invólucro formado por uma camada de brácteas maiores.
Ao contrário do que acontece na maioria das espécies da família Asteraceae (em que as flores masculinas e flores femininas se agrupam-se num mesmo capítulo), em Xanthium spinosum os capítulos são constituídos por flores do mesmo sexo, ou seja, existem capítulos com flores masculinas +  capítulos com flores femininas, mas ambos os tipos coexistindo numa mesma planta (planta monóica). 
Em Xanthium spinosum as flores masculinas também são diferentes das femininas

Ora vejamos:
A seta assinala as flores masculinas
- Os capítulos masculinos podem ser numerosos e agrupam-se no ápice dos caules ou na axila das folhas superiores. São globosos, com recetáculo cilíndrico e com invólucro ligeiramente cónico devido à forma lanceolada das brácteas que o formam.
Cada capítulo masculino tem flores mais ou menos numerosas, as quais são pequeninas e inconspícuas, de cor variável branco-amarelado ao amarelo-esverdeado. As corolas são tubulares e translucidas, com 5 lóbulos. Os estames são 5, com os filetes unidos, mas com as anteras livres.
A seta assinala as flores masculinas e a estrela indica as flores femininas
- Os capítulos femininos crescem na axila das folhas superiores mas abaixo dos masculinos com as flores femininas prontinhas para receber a chuva de pólen que há-de vir de cima, trazida pela brisa. 
Os capítulos femininos são solitários ou pouco numerosos e cada capítulo tem apenas 2 flores. Estas encontram-se encerradas dentro de uma estrutura ovóide formada pelas brácteas involucrais que são coreáceas e cobertas de espinhos em forma de gancho. Internamente, o capítulo divide-se em dois lóculos, cada um deles com uma flor feminina sem pétalas. A fertilização realiza-se através dos estiletes que estão ligados ao ovário e se apresentam salientes através das aberturas que existem em cada uma das extremidades do invólucro. O pólen dispersa-se com a ajuda do vento.
Após a fecundação os capítulos femininos transformam-se em frutos rígidos e espinhosos, inicialmente de cor verde e depois amarelo-acastanhado, com duas sementes no seu interior. A planta só se reproduz por semente.


Os espinhos dos frutos terminam em gancho e aderem ao pelo dos animais e à nossa roupa. Só com muita dificuldade são retirados, o que lhes permite “viajar” longas distancias e germinar longe da planta-mãe, assim iniciando novas colónias. 
Há quem diga que o suíço George de Mestral se inspirou na morfologia dos espinhos destes frutos para inventar o Velcro, em meados do século passado. As sementes também podem dispersar-se através da infestação do pasto ou outros grãos. Flutuam perfeitamente, dispersando-se também ao viajarem nos cursos de água ou nos regatos  formados pela água das chuvas.
As duas sementes que se encontram no interior dos frutos apresentam períodos de dormência diferentes. A semente de baixo pode germinar logo na estação seguinte, mas a outra só germinará passados 2 ou 3 anos permanecendo viável durante cerca de 8 anos.
A planta floresce e frutifica de julho a novembro, geralmente produzindo sementes durante 2 a 3 meses. Em media, cada planta produz cerca de 150 sementes. 

Esta é uma espécie largamente distribuída pela maioria dos países temperados ou subtropicais do mundo inteiro. Prospera com vigor e grande poder invasivo em locais onde o solo foi perturbado, tal como a beira dos caminhos, pastagens, terrenos baldios e zonas costeiras. É muito resistente à seca, apesar disso, é muito frequente também em terrenos periodicamente alagados e margens de cursos de agua, diques e barragens.
Provou adaptar-se de forma notável numa grande variedade de climas e outras condições ambientais com exceção de climas de frio ou calor extremo. De forma geral, nas regiões tropicais só ocorre em altitude, onde as temperaturas são mais amenas. Aparentemente não apresenta requisitos especiais no que diz respeito ao tipo de solo. A ampla distribuição de Xantium spinosum pode ser atribuída, pelo menos em parte, à sua capacidade de adaptação a uma variada gama de condições climáticas e edáficas.


Xanthium spinosum ocorre na maioria dos países do mundo quer no hemisfério norte quer no hemisfério sul,
entre as latitudes 50ºN e 43ºS, segundo algumas fontes.
Fonte do mapa: Wikimedia commons
Encontra-se mais abundantemente distribuída na Europa, região mediterrânica, Austrália, algumas regiões costeiras de África, na América do Sul e Estados Unidos.
Mapa da distribuição de Xanthium spinosum em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal - UTAD.

Esta planta é nativa da América do Sul, provavelmente do Chile, embora outros países desse grande continente reclamem a honra (Bolívia, Equador, Peru, Uruguai e Argentina). Xanthium spinosum espalhou-se pelo resto do mundo, tendo-se naturalizado de forma bastante rápida e adquirindo hábitos invasores.
As exatas origens de Xanthium spinosum permanecem algo confusas e os seus limites obscuros. Inicialmente, foi considerada nativa da Europa mas, atualmente, parece ser ponto assente que esta planta é nativa da América do Sul, introduzida e naturalizada nos restantes locais onde ocorre.
Os dados sobre a data do início da sua introdução noutros continentes e a forma como tal se passou são muito limitados. Segundo alguns autores esta planta terá chegado à Europa através de Portugal. Aliás, a espécie-tipo (espécimen de herbário sob a forma de planta seca e que serviu originalmente para lhe dar o nome) é de Portugal. 
Pius Font i Quer, botânico, farmacêutico e químico espanhol, na sua obra "Plantas medicinales: el Dioscórides renovado" (1962) refere que no século XVII esta planta era denominada Xanthium lusitanicum spinosum, numa clara alusão ao território português. Foi assim chamada por Leonard Plukenet, botânico inglês na sua obra "Almagestum botanicum" (1696), e também pelo botânico francês Magnol em "Hortus regius Monspeliensis" (1697).
Com base no ensaio "Géographie Botanique" publicado em 1820 pelo botânico suíço De Candolle, Font Quer refere que a planta mencionada por Magnol teria sido obtida a partir de sementes levadas para França por Tournefort (botânico francês 1656-1708), as quais lhe teriam sido dadas por um jardineiro português.
Em consequência, na sua primeira edição de "Species plantarum" (1753) Lineu refere a Lusitania como o habitat desta planta.

O termo Xanthium deriva do grego xanthos (=amarelo) numa referência ao corante amarelo que pode ser retirado dos frutos.
Spinosum vem do latim e refere-se aos caules espinhosos.

Esta espécie está classificada como altamente invasora na maioria das áreas onde foi introduzida. Produz sementes de forma muito prolífica, com altas taxas de germinação e sobrevivência, provocando prejuízos avultados nas safras agrícolas sobretudo da soja e algodão; ao agarrarem-se tenazmente ao pelo das ovelhas as sementes contaminam a lã, afetando as industrias de têxteis. Além do mais, é uma ameaça à fauna e flora nativas devido à sua adaptabilidade a uma ampla gama de habitats. A erradicação através de herbicidas tem-se mostrado ineficaz pelo que poderão ser equacionados meios biológicos.
As sementes, e as folhas na sua fase emergente, são muito tóxicas para o gado e animais domésticos, principalmente porcos e cavalos. Contudo, a não ser que os animais sejam obrigados a pastar onde esta planta exista em abundância, não é grande motivo de preocupação pois as folhas não agradam ao paladar dos animais e as sementes, encerradas num invólucro rígido e cheio de picos, também não são apelativas. A toxicidade das folhas desvanece-se à medida que se desenvolvem e aumentam de tamanho, embora o mesmo não aconteça com a secagem.

Xanthium spinosum já foi muito usada em medicina caseira, sobretudo pelos índios da América do Sul, por presumíveis efeitos benéficos contra alguns tipos de cancro, diabetes e cardiopatias. 
Entretanto, foram efetuados estudos e experiências “in vivo”  e “in vitro” sobre as diferentes atividades farmacológicas e fitoquímicas desta planta, os quais demonstraram propriedades analgésicas, anti-inflamatórias, antiartríticas, antiangiogénese e antivírus. São, no entanto, necessárias mais experiências para explorar o potencial terapêutico em termos de utilidade clínica.

Xanthium spinosum pertence ao género Xanthium, assim denominado pelo botânico francês Tournefort (1656-1708),  cujo trabalho foi aperfeiçoado por Lineu. Lineu aproveitou o nome genérico Xanthium em "Species Plantarum" (1753) no qual incluiu duas espécies, Xanthium spinosum e Xanthium strumarium. Desde então algumas 30 espécies foram descritas e incluídas neste género. Ora, dá-se o caso de Xanthium strumarium - que cresce um pouco por todo o mundo e também em Portugal - ser uma planta extremamente variável em termos de hábito, forma e tamanho dos frutos e reação a fatores do meio ambiente. Assim, as numerosas espécies apresentadas como espécies diferentes poderão, segundo alguns botânicos, não passar de variantes de Xanthium strumarium.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Polygonum aviculare L.

Nomes comuns:
Centonódia, erva-da-ferradeira, erva-da-muda, corriola-bastarda, 
erva-dos-passarinhos, erva-da-saúde, erva-das-galinhas, 
língua-de-perdiz, persicária-sempre-noiva, 
sanguinária, sanguinha, sempre-noiva-dos-modernos.


Polygonum aviculare é a terceira espécie do género Polygonum (familia Polygonaceae) que encontrei nesta região, juntando-se a outras duas já aqui referenciadas, nomeadamente Polygonum maritimum e Polygonum lapathifolium.
Polygonum aviculare é uma espécie nativa da Europa ou Eurásia. No entanto, hoje em dia é uma das plantas mais disseminadas no planeta. Esta distribuição generalizada é atribuída a várias características da planta, nomeadamente o elevado polimorfismo genético, grande plasticidade fenotípica, produção prolífica de sementes, múltiplos meios de dispersão de sementes, formação de um banco de sementes persistente e alelopatia (estratégia que consiste na produção de substancias químicas que impedem a emergência ou sobrevivência de outras plantas nas proximidades).


Polygonum aviculare é uma planta anual cujo período de floração vai de março a novembro, dependendo da localização. É, principalmente, uma infestante das culturas de primavera e um dos problemas mais sérios na grande variedade de culturas dos climas temperados, sendo uma das poucas ervas que são igualmente abundantes entre as culturas cerealíferas e as culturas de folhas larga, nomeadamente os legumes. É muito frequente em hortas, especialmente em climas mediterrânicos, também em pastagens e viveiros. Prefere os solos nitrogenados e algo húmidos mas também ocorre em espaços urbanos, nas rachas dos pavimentos, em solos pobres e compactados onde outras plantas encontram dificuldades em sobreviver. 

Em Portugal continental, onde é autóctone, ocorre em quase todo o território sendo mais rara no Alentejo. Também é nativa no arquipélago da Madeira, mas é exótica nos Açores.


Tal como as outras espécies do seu género os caules herbáceos são formados por nós e entrenós. Os caules desta espécie não têm pelos e são geralmente decumbentes, ou seja, desenvolvem-se sobre o solo apenas com a extremidade ascendente. Estes caules são bastante longos, podendo atingir cerca de 1 metro de comprimento, por vezes formando grandes tapetes. 


Os caules apresentam estrias longitudinais e ramificam-se quer na base quer nos nós que entram em contacto com o solo.  Também esta espécie apresenta duas estipulas membranosas que estão unidas e enroladas em torno dos caules nos nós, no ponto onde se inserem as folhas, escondendo o curto pecíolo e formando uma estrutura cilíndrica denominada ócrea. 

Ócrea

A ócrea de Polygonum aviculare é transparente, por vezes de aparência esbranquiçada e os dois segmentos que a constituem são longos, estreitos e pontiagudos.


As folhas inserem-se de forma alternada mas variam em tamanho e forma na mesma planta, podendo ser lanceoladas ou elípticas com ápice agudo ou arredondado. São de cor verde ou verde-acinzentado ou glaucas, inteiras e glabras.


As flores são muito pequenas e nascem na axila das folhas, estando muitas vezes parcialmente envolvidas pela ócrea. Tanto podem ser solitárias como crescerem em grupos pouco numerosos de 2 a 8 flores. Estas inflorescências podem distribuir-se equitativamente ao longo dos caules ou ser mais numerosas na parte superior dos mesmos.


O perianto de cada flor é constituído por 5 lóbulos em que sépalas e pétalas são indistintas sendo, por isso, denominados tépalas. As tépalas têm forma oblonga e são verdes com margens brancas ou rosadas e estão parcialmente unidas pela base, formando um tubo que encerra os órgãos reprodutores, masculinos e femininos.
A maioria das fontes sugere que esta espécie se reproduz por autofecundação. Contudo, a presença de flores abertas indica que também pode ocorrer a polinização cruzada. Existem registos de visitas a estas flores por mais de 36 tipos de insetos que se alimentam do néctar. Tendo em conta o hábito prostrado de muitos dos caules e a consequente existência de flores ao nível do solo, os insetos que visitam esta planta tanto podem ser voadores como terrestres.

Numa mesma planta existem flores cleistogâmicas (flores fechadas, de autofecundação obrigatória) e flores casmogâmicas (flores abertas em que predomina a polinização cruzada). No que diz respeito às flores casmogâmicas, apenas uma flor abre de cada vez em cada uma das inflorescências. A ântese ocorre de manha cedo e cada flor permanece aberta durante um período variável que vai de 1 a 4 dias, fechando definitivamente ao fim do dia. Estes dois tipos de flores partilham características comuns. 

O ovário tem 3 estiletes muito curtos que terminam em estigmas com a ponta arredondada. O ovário posiciona-se sobre um pequeno pedúnculo (ginóforo) compreendido entre o androceu e o gineceu, de forma que os estigmas alcançam o mesmo nível dos estames do círculo interior.

Os estames organizam-se em dois verticilos (5 num circulo interior e 3 num circulo exterior) e o seu número total varia entre 5 e 8 porque ocasionalmente o verticilo exterior não existe. Os 5 estames interiores têm filetes engrossados com bases achatadas e são mais compridos que os 3 estames exteriores os quais tem filetes filiformes. De notar que o numero de estames pode alterar-se durante o período vegetativo. 

As flores autopolinizam-se quando os estames internos se curvam sobre os estigmas. Os restantes estames alternam com os segmentos do perianto e dobram-se para fora garantindo assim a polinização cruzada se qualquer inseto visitar a flor. 
Estas flores podem ser consideradas protândricas (quando as anteras ficam maduras e libertam o pólen antes de os estigmas se tornarem recetivos) embora normalmente ocorra um curto período em que as fases férteis masculinas e femininas se sobrepõem. Quando as tépalas se fecham e os estames são forçados a entrar em contacto com os estigmas, regista-se um lapso de tempo em que as flores ainda não polinizadas têm uma segunda oportunidade, ocorrendo então a autopolinização. 

Os nectários habitualmente bem desenvolvidos noutras espécies de Polygonum não existem em Polygonum aviculare, mas regista-se a presença de néctar o que leva a crer que o mesmo poderá ser segregado pelas células da base dos filetes estaminais.

Sementes de Polygonum aviculare. Foto de RASBAK (pormenor)
Fonte Wikimedia Commons
As sementes são aquénios que se desenvolvem envolvidos pelas tépalas que formam o perianto e nele permanecem inclusos ou ligeiramente exsertos na maturação. Têm cor castanha mais ou menos escura e são triangulares, com as faces concavas.
Uma só planta de Polygonum aviculare pode produzir entre 125 a 6400 sementes dependendo da disponibilidade de recursos e o nível de competição com outras espécies. Estas sementes são muito resistentes, quer ao pisoteio, quer aos ácidos digestivos dos animais que as ingerem e também são impermeáveis à ação da água. A dispersão é feita por aves, mamíferos e também pela água. Podem ainda ser levadas para outros locais pela maquinaria agrícola.
Estes aquénios entram em dormência com o calor. Assim, necessitam de ser submetidos ao frio do inverno para poderem germinar, sendo que as temperaturas baixas quebram a dormência ao passo que as temperaturas altas do verão a reforçam.
As plantas começam a produzir sementes cerca de dois meses após a germinação.

Polygonum aviculare é definida como uma espécie altamente polimórfica. Existem consideráveis variações genéticas nos seus hábitos de crescimento, floração, número de sementes e tempo de vida. Devido à sua extensa plasticidade fenotípica diferentes variedades têm sido descritas e consideradas como espécies separadas. Assim, tem sido sujeita a diversas classificações taxonómicas ao longo dos anos. Algumas autoridades consideram a divisão de Polygonum aviculare em varias subespécies, enquanto outras a identificam como uma única espécie, embora muito polimórfica. De forma geral, as subespécies descritas são muito difíceis de diferenciar. As diferenças  relacionam-se com a forma das folhas (mais estreitas ou mais largas), a constância no tamanho das folhas (mesmo tamanho ou tornando-se mais pequenas à medida que se aproximam do topo dos caules), o comprimento relativo das tépalas e a forma do seu ápice (encapuzado ou plano).

O nome específico aviculare vem do latim aviculus, diminutivo de avis (= uma ave), referindo-se ao facto destas sementes servirem de alimento a muitos dos nossos pequenos pássaros.


Polygonum aviculare é, desde há muito, utilizada como planta medicinal. Na literatura especializada foi classificada como "analgésico, antipiretico, antisséptico, adstringente, colagogo (com ação sobre a vesícula biliar), emoliente, diurético, emético, expectorante, hemostático, laxante, tónico, vasoconstritor, vermífugo e vulnerario". A erva tem efeitos benéficos contra problemas cardiovasculares, infecções (Tunon et al., 1995) e deficiências de imunidade (Plachcinska et al., 1984; Stajner et al., 1997). Consequentemente, a erva é um dos ingredientes usados em suplementos comercializados para tratar doenças relacionadas. Contém produtos químicos antimicrobianos gerais (Cowan 1999), glicosídeos, flavonóides, mucopolissacarídeos (Wren 1992; Kim et al. 1994; Vysochina 1999; Smolarz, 2002).
Fotos: Zambujeira e Serra do Calvo/Lourinhã



domingo, 23 de julho de 2017

Polygonum lapathifolium L.

Nomes comuns:
Erva-bastarda; erva-pessegueira; mal-casada

Polygonum lapathifolium
Polygonum lapathifolium pertence à família Polygonaceae e posso dizer que esta é uma das mais complexas em termos de taxonomia. Mas, afinal, não é o que ultimamente se tem dito da maioria das famílias e géneros botânicos?
As plantas apresentam características tão variadas e complexas que se torna cada vez mais difícil decidir a melhor forma de as agrupar. A classificação dos seres vivos, conhecida como taxonomia, teve as suas origens na Antiga Grécia. Foi reformulada e vestida de novo há quase 300 anos, quando Linnaeus desenvolveu o sistema de nomenclatura binominal. Este sistema ainda hoje é utilizado, apesar das profundas transformações que, entretanto, sofreu. Os microscópios eletrónicos permitem que os cientistas observem os organismos com detalhe muito maior e o sequenciação de todos os genomas permite que se façam distinções mais exatas entre organismos intimamente relacionados. 

A classificação antiga baseou-se essencialmente em critérios morfológicos mas o desenvolvimento das técnicas de ADN revelam grande quantidade de informações sobre a semelhança e relação entre os organismos que, em muitos casos, podem ir contra a classificação morfológica tradicional. Infelizmente, a tecnologia de ADN ainda é muito cara e demorada.
  
Os desenvolvimentos tecnológicos e científicos nos últimos 50 anos também mudaram o foco de biólogos. Linnaeus acreditava que as espécies faziam parte do plano de criação divina (ainda não existia a teoria da evolução e da seleção natural desenvolvida por Charles Darwin) mas os cientistas de hoje querem entender a natureza da vida e o processo da evolução e baseiam-se no princípio da ascendência comum. 

Sabemos hoje que Linnaeus subestimou o número de plantas da Terra. Posteriormente mais e mais espécies foram sendo descritas em jornais e publicações. Na ignorância do trabalho uns dos outros, por vezes, as mesmas espécies acabaram sendo descritas e registadas com nomes diferentes por dois ou mais autores, gerando uma confusão que chegou aos dias de hoje. Essa é apenas uma das razões que contribui para a listas de sinónimos bastante extensas de algumas espécies. 

A verdade é que nem todos os problemas vêm do passado. Apesar dos novos e sofisticados meios que podem ser postos ao dispor dos cientistas faltam, muitas vezes, os fundos que sustentem e possibilitem as investigações. Outro problema é a falta de consenso que resulta da escolha dos caracteres para análise que, sendo múltiplos, nem sempre são coincidentes, cada cientista tendo a sua própria opinião sobre quais são os fundamentais, pelo que as conclusões também resultam diferentes. Todos concordam que é preciso aperfeiçoar os sistemas de classificação mas, perante a grandeza da tarefa, o consenso não será fácil de conseguir, a breve prazo.

Polygonum lapathifolium
A família Polygonaceae inclui de 43 a 55 géneros, abrangendo de 1100 a 1200 espécies que ocorrem numa grande variedade de habitats situados maioritariamente em zonas temperadas do hemisfério norte com algumas espécies em regiões tropicais e subtropicais. 
Os membros de Polygonaceae são morfologicamente muito variados. Desde que a família foi reconhecida por Jussieu em 1789 a taxonomia de Polygonaceae tem sido continuamente revista. Em causa estão, sobretudo, a circunscrição de subfamílias, tribos e géneros. Muito resumidamente, numa das mais recentes revisões, esta família foi dividida em duas subfamílias, Eriogonoideae e Polygonoideae.

Polygonum, grupo a que pertence a espécie em questão no "post" de hoje, Polygonum lapathifolium, é o género mais alargado da subfamília Polygonoideae
Linnaeus estabeleceu o género Polygonum em 1754 como uma unidade heterogénea e alargada, nela incluindo diversas espécies não relacionadas e que não sabia onde mais poderia colocar. Desde logo, Polygonum passou a ser considerado um dos grupos mais problemáticos e a representar um grande desafio para os taxonomistas. 
Não cabe aqui a resenha das diferentes interpretações e consequentes alterações que Polygonum sofreu ao longo da sua história, em que foi subdivido em números variáveis de seções e subseções, desmembrado em diferentes géneros e tratado como tribo Polygoneae

Em "sentido amplo", Polygonum compõe-se presentemente de grupos mais pequenos de "sentido restrito", situação confirmada por estudos moleculares recentes. 
Dentro do sentido amplo de Polygonum incluem-se vários géneros sendo que um deles é o género Polygonum (em sentido restrito) e também o género Persicaria, entre outros. Menciono aqui o género Persicaria (descrito por Miller em 1754) porque a espécie Polygonum lapathifolium é incluída nesse género por alguns botânicos/sistemas e classificada como Persicaria lapathifolia
O género Persicaria é mais um pomo de discórdia, sendo considerado por alguns como parte de Polygonum (no sentido amplo) ou sinónimo de Polygonum (no sentido restrito) e por outros, como género de direito próprio, fazendo parte da tribo Persicarieae. Todo o historial é, na realidade, muito complicado.
  
Enfim, depois de dissecado todo o material disponível sobre o assunto, a única conclusão a que se pode chegar é que não há conclusão nenhuma. Ou seja,  a exacta circunscrição e classificação infragenérica de Persicaria Mill. e Polygonum L. ainda são tema de debate.

Segundo o portal Flora-on (Sociedade Portuguesa de Botânica) ocorrem em Portugal 13 espécies do género Polygonum, na sua maioria autóctones. 
Polygonum lapathifolium, espécie autóctone de Portugal continental e Madeira, naturalizada nos Açores.
Polygonum lapathifolium é uma espécie autóctone de Portugal continental e arquipélago da Madeira. Também ocorre no arquipélago dos Açores, embora como espécie introduzida e naturalizada.

De forma geral Polygonum lapathifolium distribui-se pelas regiões temperadas do hemisfério norte (Europa, oeste asiático) e África do Sul.

Polygonum lapathifolium
Esta espécie infestante prefere os locais húmidos ou inundados, nitrogenados e em pleno sol.
Esta é uma infestante anual, especialmente problemática em culturas de regadio na primavera e verão. Vive em habitats perturbados por atividades humanas, preferencialmente húmidos, não só em solos cultivados mas também ao longo de margens de cursos de água e em valas de escoamento. É particularmente abundante em solos ricos em nutrientes e de consistência friável. Consegue conviver com situações pontuais de redução de humidade e nutrientes mas é exigente no que diz respeito à exposição solar, sendo intolerante à sombra.
Polygonum lapathifolium
Os caules, finos e de cor avermelhada, são formados por nós e entrenós.
O sistema radicular de Polygonum lapathifolium é superficial e fibroso. 
Os caules são herbáceos e crescem de forma ereta ou ascendente, podendo chegar aos 80 cm de altura. São hastes finas, lisas e lustrosas, mais ou menos ramificadas, de cor verde ou avermelhada e formadas por nós e entrenós.
Vem a propósito referir que o termo Polygonum deriva do grego: “poly” = muitos e “gonu” = joelhos, referindo-se aos múltiplos nós inchados presentes na constituição dos caules.
Polygonum lapathifolium
Algumas folhas apresentam uma mancha escura em forma de V.
As folhas dispõem-se de forma alternada, ligando-se ao caule por um pecíolo curto; são inteiras e lanceoladas ou elípticas, mais largas perto da base e estreitando progressivamente para o ápice, com alguns pelos curtos e rígidos protegendo as margens do limbo. Algumas, mas não todas, apresentam uma mancha escura na pagina superior do limbo em forma de V . 
Polygonum lapathifolium
Página superior da folha em que se notam as glândulas mencionadas no texto
 e ainda os bordos protegidos por pelos curtos e rígidos.
As folhas podem ser glabras ou ligeiramente pubescentes, com indumento de pelos curtos e densos na página superior e pelos curtos, espessos e emaranhados na página inferior ou apenas ao longo das nervuras. A superfície das folhas apresenta inconspícuas glândulas resinosas, translucidas ou amareladas, em ambas as páginas ou apenas na inferior.
Polygonum lapathifolium
As ócreas são formadas por duas estípulas unidas e que envolvem os nós do caule.
Tal como é característico da família Polygonaceae, esta espécie possui duas estipulas que são membranosas e estão unidas e enroladas em torno dos caules no ponto onde as folhas se inserem no caule, fundindo-se com ele e formando uma estrutura cilíndrica denominado ócrea. As ócreas de Polygonum lapathifolium apresentam nervuras tipicamente proeminentes e avermelhadas, com a borda truncada ou com cílios curtos, tornando-se mais escuras e escamando com a idade.
Polygonum lapathifolium - Ócrea

NOTA sobre as estípulas:
Apenas cerca de um terço das angiospermas (grupo das plantas que dão fruto a partir da fecundação do ovário de uma flor, o maior e mais moderno grupo de plantas, englobando cerca de 230 mil espécies) possuem estipulas. Estas aparecem aos pares e variam de espécie para espécie, em tamanho e morfologia; podem ser estruturas laminares, glândulas, pelos, espinhos ou escamas; algumas são caducas e outras são perenes; por vezes são insignificantes, outras vezes são de tal forma desenvolvidas que se confundem com verdadeiras folhas, ajudando no processo da fotossíntese; podem transformar-se em gavinhas, para ajudar no crescimento vertical da planta ou em espinhos, como forma de reduzir a predação por vertebrados herbívoros; em muitas espécies as estipulas são pequenas e residuais, sem nenhuma função óbvia; noutras espécies evoluíram para nectários extraflorais atraindo formigas (com as quais estabelecem interações mutualistas, de que beneficiam tanto as plantas como as formigas).
A função primitiva das estipulas permanece algo obscura e a maioria das angiospermas que não as tem, não parece sentir-lhes a falta. Contudo, a ausência destas estruturas é tão importante como a sua presença, pois é um fator fundamental na identificação das espécies.

Polygonum lapathifolium - inflorescência
As flores de Polygonum lapathifolium agrupam-se em inflorescências cilíndricas, do tipo espiciforme, em que as flores sésseis se inserem de forma densa sobre um eixo alongado geralmente coberto de pequenas glândulas, assemelhando-se a uma espiga com cerca de 5 a 7 cm de comprimento. Estas inflorescências são longas, esguias e flexíveis, curvando-se para baixo de forma bastante atraente. Esta característica é única e marca a diferença em relação a outras espécies do mesmo género que apresentam inflorescências mais ou menos eretas.
Polygonum lapathifolium - flores agrupadas na inflorescência
As flores nunca abrem por completo. Cada pequena flor, com apenas cerca de 3 mm de comprimento apresenta 4 tépalas unidas na base. As tépalas são segmentos indistintos que constituem o perianto, fazendo as vezes de sépalas e pétalas e em cujo interior se situam os órgãos reprodutores masculinos e femininos. As tépalas apresentam uma gradação de cores que vai desde o branco até ao rosa-claro passando pelo esverdeado e apresentam glândulas amareladas na sua superfície. 
Polygonum lapathifolium
As setas indicam o contorno das nervuras das tépalas em forma de ancora, característico desta espécie.
Os pequenos pontos amarelos são as glândulas.
De forma característica, as tépalas apresentam uma nervação distintamente bifurcada, as nervuras curvando-se para baixo perto do ápice, com contorno semelhante a uma âncora. Este é um detalhe morfológico distintivo e único nesta espécie. 
O ovário tem 2 estiletes ligados pela base. Os estames são 6.

A floração ocorre desde o fim da primavera até ao fim do verão e dura cerca de mês e meio a dois meses.
As tépalas mantêm-se na planta durante a maturação dos frutos. Estes são aquénios que uma vez maduros apresentam cor muito escura e são brilhantes, de forma ovóide, por vezes grosseiramente triangulares e com os lados ligeiramente côncavos.
Polygonum lapathifolium
Frutos imaturos

Polygonum lapathifolium
As setas indicam os frutos maduros

Esta planta ressemeia-se naturalmente em locais que lhe sejam favoráveis, sendo esta a única forma de dispersão da espécie. Em média cada planta produz cerca de 800 a 850 sementes, as quais germinam principalmente durante a primavera. Para que a germinação se processe as sementes necessitam de passar pelos frios do inverno, quebrando a dormência.

Em face da sua ampla distribuição, hábito infestante e a sua relativa intolerância à sombra, Polygonum lapathifolium é potencialmente prejudicial em qualquer tipo de cultura de sementeira onde geralmente ocorre, brotando ao mesmo tempo que a sementeira se desenvolve.
A juntar aos seus efeitos competitivos, Polygonum lapathifolium serve de hospedeira a um significativo número de pragas prejudiciais à agricultura, nomeadamente o vírus do mosaico do pepino (CMV), Fusarium oxysporum que ataca as culturas do feijão, tomate ou espinafre, nematóides da haste da cebola, entre outros.
Em contrapartida, esta espécie é tremendamente importante para a vida selvagem. O néctar segregado pelas flores atrai moscas, vespas, abelhas e até pequenas borboletas. Uma enorme variedade de besouros e larvas de borboletas alimentam-se das folhas e outras partes da planta. Nas zonas húmidas as sementes são também uma fonte importante de alimento para varias espécies de patos e outras aves mais pequenas. Contudo, esta espécie não é do agrado dos herbívoros mamíferos devido ao seu sabor amargo e apimentado.

Polygonum lapathifolium pode ser confundida com Polygonum persicaria que é também autóctone no nosso país e que, muitas vezes, ocorre nos mesmo habitats.
Diferença nas ócreas das duas espécies que podem ser confundidas.
Foto da ócrea de Poligonum persicaria de Miguel Porto/Flora-on
A diferença mais óbvia entre as duas espécies reside na ócrea que em Polygonum persicaria é claramente ciliada ao contrário do que acontece com Polygonum lapathifolium

Em tempos idos, Polygonum lapathifolium foi usada em medicina tradicional. À semelhança do que acontece com outras espécies da mesma família esta planta contém compostos orgânicos com ação terapêutica no tratamento de algumas patologias. As propriedades antioxidantes, hepatoprotetoras e anti-inflamatórias devem-se à presença de substâncias químicas complexas de composição variada produzidas através dos metabólitos secundários e que existem nas partes aéreas da planta, nomeadamente Calconaflavonóides e ácido gálico.

Os metabólitos secundários:
As plantas sintetizam um enorme número de químicos, de natureza muito diversificada. Estes químicos podem ser divididos em metabólitos primários e secundários.

Os metabólitos primários incluem os químicos essenciais para o crescimento e desenvolvimento de todas as plantas, como a fotossíntese ou o metabolismo respiratório.

Os metabólitos secundários são estrutural e quimicamente muito mais diversificados que os metabólitos primários e referem-se a compostos presentes em células especializadas que, não sendo diretamente essenciais, são, ainda assim, necessários para a sobrevivência das plantas.
Os metabólitos secundários são capazes de responder eficazmente às situações de stress, aparentemente atuando como defesa (contra herbívoros, micróbios, viroses ou plantas concorrentes) como sinalização (para atrair polinizadores e animais dispersores das sementes) e também como antioxidantes e protetores da radiação solar.

Existem milhares de metabólitos secundários e são eles os responsáveis pelas propriedades terapêuticas registadas em tantas plantas consideradas medicinais.

Fotos: Abelheira/Lourinhã