"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





sábado, 11 de novembro de 2017

Halimium halimifolium (L.) Willk.

Nome comum: Sargaça


Os fogos foram, desde sempre, um dos maiores problemas na bacia do Mediterrâneo. A geografia física da região parece favorecer a incidência de incêndios; e o tipo de clima em que são constantes os períodos de seca é, por si só, um factor de risco. 

Inicialmente o fogo era uma força da natureza, componente natural que surgia de forma mais ou menos periódica no ciclo vegetativo, permitindo um rejuvenescimento das populações e ajudando a criar um novo mosaico de comunidades vegetais.
No entanto, a entrada em cena do elemento humano (há cerca de 10, 000 anos nas regiões orientais e 4,000 nas terras do ocidente) veio perturbar o equilíbrio natural. O Homem não só usou o fogo como também abusou da sua força, utilizando-o de forma indiscriminada e gananciosa para desbastar as florestas e dessa forma conseguir novos campos para a agricultura e o pastoreio. De forma sistemática e constante, a paisagem do Mediterrâneo foi sendo moldada pelas actividades antropogénicas. Em consequência, flora e fauna foram-se adaptando aos distúrbios causados pelo Homem. 

Nada mudou desde que há milhares de anos o Homem chegou à região. Incúria, desleixo e atividades criminosas são parcialmente responsáveis pelos extensos fogos que todos os anos atingem a região. No passado verão, além dos prejuízos irreparáveis na flora e fauna, os incêndios causaram mortos, feridos e obrigaram à evacuação de cerca de 12 000 pessoas em Portugal, França, Córsega, Itália e Albânia. Cerca de 90% da área ardida na Europa localiza-se na bacia do Mediterrâneo.

No entanto, a flora mediterrânica é de uma diversidade riquíssima, sendo constituída por espécies resistentes, calejadas pelas muitas dificuldades que encontram: seca, solos pobres e fogo. A vegetação atual da bacia do Mediterrâneo resulta de milhares de anos de evolução, durante as quais as plantas adquiriram mecanismos que lhes permitem superar os efeitos dos fogos e dos fatores climáticos (como a seca de verão). 
Cada tipo de espécie desenvolveu diferentes métodos de sobrevivência para subsistir a distúrbios e perpetuar-se, bem como as comunidades a que pertencem. 

Na península Ibérica o tipo de vegetação arbustiva tipicamente mediterrânica prospera, muitas vezes, em campos agrícolas ou pastagens abandonados, em áreas florestais degradadas e nos cumes montanhosos. 
O pastoreio intensivo e os fogos continuam, em grande parte, a ser responsáveis pela degradação do solo. Vão desaparecendo as árvores e vai-se favorecendo a expansão de arbustos oligotróficos e pirofíticos, os quais, na realidade são muitíssimo úteis pois impedem a erosão dos solos.
- O termo oligotrófico usa-se para caracterizar plantas que prosperam melhor em ambientes muito pobres em nutrientes.
- Plantas pirofíticas são aquelas que ao longo de milhares de anos evoluíram no sentido de se defenderem dos fogos periódicos. Para tal, desenvolveram estratégias tais como: ajuste do seu crescimento anual à disponibilidade de água no solo; sistema radicular capacitado para minimizar as alterações resultantes da distribuição sazonal da precipitação anual; estômatos (aberturas nas folhas responsáveis pela transpiração) que abrem o fecham de acordo com a necessidade diária.
Entre eles distinguem-se:
- Pirofitos de resistência passiva, os quais contêm um alto teor de água nos seus tecidos como é o caso do Agave e outras suculentas ou possuem uma casca espessa como o sobreiro (Quercus suber);
- Pirofitos que rebrotam a partir de um enraizamento profundo ou devido a rebentos epicormicos (vulgarmente conhecidos como rebentos ladrões) como no caso do carrasco (Quercus coccifera) e do medronheiro, Arbustos unedo;
- Pirofitos cujas sementes são estimuladas a germinar pela ação do  fogo, como é o caso da espécie que hoje entra em cena, Halimium halimifolium.


Halimium halimifolium é uma espécie nativa da região oeste mediterrânica, cobrindo as regiões que vão de Portugal à Itália e de Marrocos até à Tunísia.
Em Portugal ocorre em todo o litoral a sul de Aveiro e também Ribatejo, Baixo Alentejo e Algarve.
O seu habitat natural são sobretudo os areiais costeiros, os pinhais e sobreirais, constituindo os chamados matagais xerofilicos, situação em que se associam espécies que se adaptaram a meios secos e que sobrevivem com quantidades de água reduzidas. Formam um tipo de vegetação que caracteriza os climas mediterrânicos (ex: sobreiro, carrasco, alecrim, rosmaninho, alfazema, tojo, esteva e tantas outras já descritas neste blogue), espécies especialmente resistentes aos fogos.
Halimium halimifolium forma um pequeno arbusto ereto e muito ramificado que pode chegar aos 150 cm de altura. 
O exemplar identificado nas fotos que acompanham este texto é, contudo, bastante mais pequeno, mal ultrapassando os 30 cm, sendo que o ano foi seco e a planta não teve possibilidades de se desenvolver em todo o seu potencial. 
Cultivada em jardins é uma espécie muito ornamental e apreciada não só pelo colorido das flores mas também pelos tons prateados da folhagem.
O eixo central é algo lenhoso com a superfície em tons avermelhados. Os caules estão densamente cobertos por pelos estrelados ( irradiando de um centro, como os raios de uma estrela) que são hialinos (transparentes e sem cor) nos caules mais jovens,dando-lhe uma cor prateada e são vermelho-acastanhados nos caules mais velhos.
As folhas são elípticas ou lanceolado-espatuladas, com pecíolo curto, opostas e de cor verde-acinzentada, cobertas por pelos densos em ambas as páginas, os quais permitem algum alivio ao refletirem os raios solares.
As flores agrupam-se em inflorescências terminais, frouxas ou densas. Os pedicelos da inflorescência estão cobertos de pelos estrelados e/ou peltados de cor avermelhada.
O cálice é constituído por 5 sépalas desiguais e cobertas, em proporção variável, por pelos peltados ou estrelados. As duas sépalas externas são pequenas e de forma linear (podendo estar reduzidas a uma única) e estão parcialmente unidas às internas que são 3, maiores e acrescentes na frutificação, o que significa que acompanham o crescimento do fruto.
A corola possui 5 pétalas iguais de cor amarelo-dourado que podem ter, ou não, manchas escuras na base.
Cada flor possui órgãos reprodutores masculinos e femininos. O ovário é tricarpelar, dando origem a um fruto com 3 valvas. Dele desponta um estilete curto com estigma de cor branca e em forma de clava. Os estames, todos de cor amarela são numerosos e de tamanho irregular.
As flores abrem de manhã cedo e duram apenas algumas horas, logo sendo substituídas por outras. No momento em que as pétalas abrem, a maior parte das anteras já começaram a libertar o pólen o qual é imediatamente recolhido pelos primeiros insetos visitantes. Estas flores não produzem néctar pelo que a única atração é o pólen. Ao fim de 11 a 12 horas as flores já terão todas sido polinizadas razão pela qual as pétalas caiem, não sendo já necessárias.
O maior grupo de insetos visitantes são do género coleoptera tais como escaravelhos, joaninhas, gorgulhos.


O fruto é uma cápsula que permanece inclusa no cálice persistente. É deiscente e de forma ovóide, com o ápice coberto de pelos estrelados. Abre-se por 2 ou 3 valvas dentro das quais existem numerosas sementes acastanhadas.


Em condições naturais a percentagem de germinação é relativamente baixa, entre os 20 e os 30 %, o que pode indicar a presença de uma dormência primária da maioria das sementes, dormência essa que se inicia durante as fases iniciais ou finais do desenvolvimento da semente na planta-mãe e está associada à existência de uma grande dureza da capa exterior. Esta capa extra-dura registada numa grande percentagem de sementes torna-as impermeáveis à humidade e ao oxigénio. Ou seja, parece evidente que a planta produz uma pequena proporção de sementes de cobertura mole e germinação fácil que asseguram a manutenção das populações e uma alta percentagem de sementes de capa dura que garantem a criação de um banco de sementes no solo. Seguindo o seu curso natural esta dormência poderá ser quebrada através da deterioração progressiva em resultado da humidade da chuva, erosão mecânica, ação microbiana ou altas temperaturas provocadas pelo fogo.



Halimium halimifolium é uma espécie com grande variabilidade morfológica, sobretudo com diferenças ao nível dos pelos que cobrem as sépalas. São consideradas duas subespécies. Ambas ocorrem em Portugal mas com distribuição diferente:
Halimium halimifolium subespécie halimifolium:
- Caracterizada por sépalas unicamente com pelos peltados, amarelados, as vezes com alguns pelos estrelados, hialinos nas margens e no ápice.
Em Portugal ocorre principalmente na região do Algarve (Flora Iberica).
Halimium halimifolium subespécie multiflorum:
- Caracterizada por sépalas cobertas de pelos peltados amarelados misturados com numerosos pelos estrelados hialinos.
Esta é a espécie mais comum em Portugal (Flora Iberica).
e - pelos peltados: apresentam todas as células no mesmo plano, formando um escudo.
f - pelos estrelados: irradiam de um centro para a periferia, como os raios de uma estrela.
Halimium halimifolium subsp. multiflorum
Desenho de Flora Iberica
Esta espécie foi originalmente incluída no género Cistus. De facto, Cistus halimifolius é o nome original desta espécie (basiónimo) o qual lhe foi atribuído por Lineu em Species Plantarum (1753): Cistus, devido à semelhança das flores com espécies desse género e halimifolius por ter folhas acinzentadas semelhantes às de uma espécie de outro género que vive em ambientes salgados das regiões costeiras, Atriplex halimus
Porém, cerca de um século mais tarde a espécie foi transferida do género Cistus para o género Halimium pelo botânico alemão Wilkomm, tendo sido o termo com que Lineu designou a espécie (halimifolius) alterado para halimifolium.
(os termos halimus, halimifolius, halimifolium todos derivam do grego "hals, halós"= mar, sal).
Os géneros Cistus e Halimium pertencem ambos à família Cistaceae e são reconhecidos como géneros distintos apesar de partilharem algumas características, como por exemplo o número de cromossomas (2n = 18), sendo que as espécies dos outros géneros da mesma família possuem números de cromossomas diferentes. 
A distinção entre estes dois géneros foi baseada principalmente em carateres morfológicos: 
- Cistus tem flores rosa ou brancas com 5 lóculos em cada ovário (exceto Cistus ladanifer que tem entre 6 e 12). 
- Halimium tem flores amarelas ou brancas com 3 lóculos em cada ovário. 
Contudo, flores brancas com 4 lóculos em cada ovário podem ser encontrados em ambos os géneros (Demoly, 1998). Também o número de sépalas pode apresentar-se variável num e noutro destes géneros, podendo registar-se uma sobreposição de características morfológicas e as transições entre os dois géneros são contínuas. Existe compatibilidade entre as espécies dos dois géneros pelo que hibridizam com facilidade tendo dado origem a espécies separadas que foram colocadas no género xHalimiocistus.
O género Cistus distribui-se desde o Mediterrâneo ocidental até às montanhas do Cáucaso ao passo que Halimium está confinado ao Mediterrâneo ocidental, com pequenas ocorrências na Grécia.
Como vimos, as 20 espécies de Cistus e as 7 de Halimium estão separadas desde o século XVIII. O híbrido destes dois géneros (x Halimiocistus) contém 3 espécies.
Em 2006, foi proposto (Demoly J.P.) que todas as espécies de Halimium e xHalimiocistus fossem incluídas no género Cistus.
Halimium halimifolium floresce entre os meses de março a agosto.

Várias espécies da família Cistaceae, principalmente dos géneros Cistus e Halimium são muito apreciadas como ornamentais em jardinagem, pela beleza da folhagem, colorido das flores. Os anglo-saxónicos chamam-lhes rockroses, ou seja, rosas das rochas. Apesar de tolerantes aos solos pobres em nutrientes e resistentes aos períodos de seca, quando cultivadas em jardins estas plantas beneficiam muito se lhes for dar dado algum cuidado extra, incluindo algum composto nas raízes e não as deixando passar muita sede.

Fotos de Halimium halimifolium: Serra do Calvo/Lourinhã

Para mais informações e fotos sobre o género Cistus pode consultar a seguinte lista de espécies já descritas neste blogue:

Cistus crispus (roselha)
Cistus monspeliensis (sargação)
Cistus salvifolius (estevinha)


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Xanthium spinosum L.

Nomes comuns:
Pica-três, bardana-espinhosa, arzola, gatinho


Quando voltamos de um passeio de verão pelo campo, são grandes as hipóteses de trazermos para casa a tarefa incomoda de arrancar pequenas sementes e folhas que se agarraram tenazmente às meias e aos atacadores dos sapatos de ténis. 
Ganchos, espinhos ou outros "apetrechos" permitem que pequenas sementes se agarrem a tudo o que passa perto. São intencionais e fazem parte das estratégias de que se socorrem certas espécies para se fazerem transportar à boleia para longe da planta-mãe, conseguindo assim iniciar novas colónias. Nesta perspetiva uma das plantas mais irritantes é Xanthium spinosum, uma sobrevivente por excelência que, a pouco e pouco, vem conquistando lugar privilegiado no mundo.


Xanthium spinosum é muito fácil de identificar. 
É uma planta anual, robusta e de tamanho médio, podendo atingir os 90 cm de altura. Os seus caules são eretos ou ligeiramente curvados, rígidos e muito ramificados. 

A seta assinala os espinhos tripartidos que nascem na axila das folhas
Os caules são de cor verde-claro, com um indumento de pelos fracos e densos. Quando jovens os caules são herbáceos tornando-se, depois, algo lenhosos. De forma característica, os caules projetam longos espinhos tripartidos de cor amarelada que nascem nos nós da axila das folhas.


As folhas dispõem-se de forma alternada e ligam-se ao caule através de pecíolos curtos ou são quase sésseis. As folhas são relativamente estreitas, com forma lanceolada ou elíptica e são profundamente recortadas; as inferiores são muito irregulares com cinco lóbulos, sendo o lóbulo médio muito maior que os restantes; as folhas superiores são bastante mais alongadas dado que os lóbulos medianos podem ser insignificantes ou ausentes. 


A página superior das folhas é de cor verde-escuro brilhante, com pelos fracos e ralos, mais densos nas nervuras proeminentes e de cor clara; as páginas inferiores apresentam cor esbranquiçada devido à cobertura de pelos curtos e densos, enrolados sobre si próprios.
Este é o capitulo que podemos observar em muitas das espécies da família Asteraceae
mas não é o caso de Xanthium spinosum, como veremos no texto.

Esta espécie está incluída na família Asteraceae/Compositae, no entanto, as flores e os frutos são muito diferentes da generalidade das espécies deste grupo. A maior diferença reside no facto de Xanthium spinosum produzir capítulos de flores unissexuais ao contrário dos habituais capítulos de flores bissexuais.
A principal característica das Asteraceae são os capítulos, em que as flores minúsculas estão inseridas num recetáculo em forma de disco e separadas por pequeníssimas brácteas, estando este conjunto envolvido por um invólucro formado por uma camada de brácteas maiores.
Ao contrário do que acontece na maioria das espécies da família Asteraceae (em que as flores masculinas e flores femininas se agrupam-se num mesmo capítulo), em Xanthium spinosum os capítulos são constituídos por flores do mesmo sexo, ou seja, existem capítulos com flores masculinas +  capítulos com flores femininas, mas ambos os tipos coexistindo numa mesma planta (planta monóica). 
Em Xanthium spinosum as flores masculinas também são diferentes das femininas

Ora vejamos:
A seta assinala as flores masculinas
- Os capítulos masculinos podem ser numerosos e agrupam-se no ápice dos caules ou na axila das folhas superiores. São globosos, com recetáculo cilíndrico e com invólucro ligeiramente cónico devido à forma lanceolada das brácteas que o formam.
Cada capítulo masculino tem flores mais ou menos numerosas, as quais são pequeninas e inconspícuas, de cor variável branco-amarelado ao amarelo-esverdeado. As corolas são tubulares e translucidas, com 5 lóbulos. Os estames são 5, com os filetes unidos, mas com as anteras livres.
A seta assinala as flores masculinas e a estrela indica as flores femininas
- Os capítulos femininos crescem na axila das folhas superiores mas abaixo dos masculinos com as flores femininas prontinhas para receber a chuva de pólen que há-de vir de cima, trazida pela brisa. 
Os capítulos femininos são solitários ou pouco numerosos e cada capítulo tem apenas 2 flores. Estas encontram-se encerradas dentro de uma estrutura ovóide formada pelas brácteas involucrais que são coreáceas e cobertas de espinhos em forma de gancho. Internamente, o capítulo divide-se em dois lóculos, cada um deles com uma flor feminina sem pétalas. A fertilização realiza-se através dos estiletes que estão ligados ao ovário e se apresentam salientes através das aberturas que existem em cada uma das extremidades do invólucro. O pólen dispersa-se com a ajuda do vento.
Após a fecundação os capítulos femininos transformam-se em frutos rígidos e espinhosos, inicialmente de cor verde e depois amarelo-acastanhado, com duas sementes no seu interior. A planta só se reproduz por semente.


Os espinhos dos frutos terminam em gancho e aderem ao pelo dos animais e à nossa roupa. Só com muita dificuldade são retirados, o que lhes permite “viajar” longas distancias e germinar longe da planta-mãe, assim iniciando novas colónias. 
Há quem diga que o suíço George de Mestral se inspirou na morfologia dos espinhos destes frutos para inventar o Velcro, em meados do século passado. As sementes também podem dispersar-se através da infestação do pasto ou outros grãos. Flutuam perfeitamente, dispersando-se também ao viajarem nos cursos de água ou nos regatos  formados pela água das chuvas.
As duas sementes que se encontram no interior dos frutos apresentam períodos de dormência diferentes. A semente de baixo pode germinar logo na estação seguinte, mas a outra só germinará passados 2 ou 3 anos permanecendo viável durante cerca de 8 anos.
A planta floresce e frutifica de julho a novembro, geralmente produzindo sementes durante 2 a 3 meses. Em media, cada planta produz cerca de 150 sementes. 

Esta é uma espécie largamente distribuída pela maioria dos países temperados ou subtropicais do mundo inteiro. Prospera com vigor e grande poder invasivo em locais onde o solo foi perturbado, tal como a beira dos caminhos, pastagens, terrenos baldios e zonas costeiras. É muito resistente à seca, apesar disso, é muito frequente também em terrenos periodicamente alagados e margens de cursos de agua, diques e barragens.
Provou adaptar-se de forma notável numa grande variedade de climas e outras condições ambientais com exceção de climas de frio ou calor extremo. De forma geral, nas regiões tropicais só ocorre em altitude, onde as temperaturas são mais amenas. Aparentemente não apresenta requisitos especiais no que diz respeito ao tipo de solo. A ampla distribuição de Xantium spinosum pode ser atribuída, pelo menos em parte, à sua capacidade de adaptação a uma variada gama de condições climáticas e edáficas.


Xanthium spinosum ocorre na maioria dos países do mundo quer no hemisfério norte quer no hemisfério sul,
entre as latitudes 50ºN e 43ºS, segundo algumas fontes.
Fonte do mapa: Wikimedia commons
Encontra-se mais abundantemente distribuída na Europa, região mediterrânica, Austrália, algumas regiões costeiras de África, na América do Sul e Estados Unidos.
Mapa da distribuição de Xanthium spinosum em Portugal continental
Fonte: Flora Digital de Portugal - UTAD.

Esta planta é nativa da América do Sul, provavelmente do Chile, embora outros países desse grande continente reclamem a honra (Bolívia, Equador, Peru, Uruguai e Argentina). Xanthium spinosum espalhou-se pelo resto do mundo, tendo-se naturalizado de forma bastante rápida e adquirindo hábitos invasores.
As exatas origens de Xanthium spinosum permanecem algo confusas e os seus limites obscuros. Inicialmente, foi considerada nativa da Europa mas, atualmente, parece ser ponto assente que esta planta é nativa da América do Sul, introduzida e naturalizada nos restantes locais onde ocorre.
Os dados sobre a data do início da sua introdução noutros continentes e a forma como tal se passou são muito limitados. Segundo alguns autores esta planta terá chegado à Europa através de Portugal. Aliás, a espécie-tipo (espécimen de herbário sob a forma de planta seca e que serviu originalmente para lhe dar o nome) é de Portugal. 
Pius Font i Quer, botânico, farmacêutico e químico espanhol, na sua obra "Plantas medicinales: el Dioscórides renovado" (1962) refere que no século XVII esta planta era denominada Xanthium lusitanicum spinosum, numa clara alusão ao território português. Foi assim chamada por Leonard Plukenet, botânico inglês na sua obra "Almagestum botanicum" (1696), e também pelo botânico francês Magnol em "Hortus regius Monspeliensis" (1697).
Com base no ensaio "Géographie Botanique" publicado em 1820 pelo botânico suíço De Candolle, Font Quer refere que a planta mencionada por Magnol teria sido obtida a partir de sementes levadas para França por Tournefort (botânico francês 1656-1708), as quais lhe teriam sido dadas por um jardineiro português.
Em consequência, na sua primeira edição de "Species plantarum" (1753) Lineu refere a Lusitania como o habitat desta planta.

O termo Xanthium deriva do grego xanthos (=amarelo) numa referência ao corante amarelo que pode ser retirado dos frutos.
Spinosum vem do latim e refere-se aos caules espinhosos.

Esta espécie está classificada como altamente invasora na maioria das áreas onde foi introduzida. Produz sementes de forma muito prolífica, com altas taxas de germinação e sobrevivência, provocando prejuízos avultados nas safras agrícolas sobretudo da soja e algodão; ao agarrarem-se tenazmente ao pelo das ovelhas as sementes contaminam a lã, afetando as industrias de têxteis. Além do mais, é uma ameaça à fauna e flora nativas devido à sua adaptabilidade a uma ampla gama de habitats. A erradicação através de herbicidas tem-se mostrado ineficaz pelo que poderão ser equacionados meios biológicos.
As sementes, e as folhas na sua fase emergente, são muito tóxicas para o gado e animais domésticos, principalmente porcos e cavalos. Contudo, a não ser que os animais sejam obrigados a pastar onde esta planta exista em abundância, não é grande motivo de preocupação pois as folhas não agradam ao paladar dos animais e as sementes, encerradas num invólucro rígido e cheio de picos, também não são apelativas. A toxicidade das folhas desvanece-se à medida que se desenvolvem e aumentam de tamanho, embora o mesmo não aconteça com a secagem.

Xanthium spinosum já foi muito usada em medicina caseira, sobretudo pelos índios da América do Sul, por presumíveis efeitos benéficos contra alguns tipos de cancro, diabetes e cardiopatias. 
Entretanto, foram efetuados estudos e experiências “in vivo”  e “in vitro” sobre as diferentes atividades farmacológicas e fitoquímicas desta planta, os quais demonstraram propriedades analgésicas, anti-inflamatórias, antiartríticas, antiangiogénese e antivírus. São, no entanto, necessárias mais experiências para explorar o potencial terapêutico em termos de utilidade clínica.

Xanthium spinosum pertence ao género Xanthium, assim denominado pelo botânico francês Tournefort (1656-1708),  cujo trabalho foi aperfeiçoado por Lineu. Lineu aproveitou o nome genérico Xanthium em "Species Plantarum" (1753) no qual incluiu duas espécies, Xanthium spinosum e Xanthium strumarium. Desde então algumas 30 espécies foram descritas e incluídas neste género. Ora, dá-se o caso de Xanthium strumarium - que cresce um pouco por todo o mundo e também em Portugal - ser uma planta extremamente variável em termos de hábito, forma e tamanho dos frutos e reação a fatores do meio ambiente. Assim, as numerosas espécies apresentadas como espécies diferentes poderão, segundo alguns botânicos, não passar de variantes de Xanthium strumarium.

Fotos: Serra do Calvo/Lourinhã


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Polygonum aviculare L.

Nomes comuns:
Centonódia, erva-da-ferradeira, erva-da-muda, corriola-bastarda, 
erva-dos-passarinhos, erva-da-saúde, erva-das-galinhas, 
língua-de-perdiz, persicária-sempre-noiva, 
sanguinária, sanguinha, sempre-noiva-dos-modernos.


Polygonum aviculare é a terceira espécie do género Polygonum (familia Polygonaceae) que encontrei nesta região, juntando-se a outras duas já aqui referenciadas, nomeadamente Polygonum maritimum e Polygonum lapathifolium.
Polygonum aviculare é uma espécie nativa da Europa ou Eurásia. No entanto, hoje em dia é uma das plantas mais disseminadas no planeta. Esta distribuição generalizada é atribuída a várias características da planta, nomeadamente o elevado polimorfismo genético, grande plasticidade fenotípica, produção prolífica de sementes, múltiplos meios de dispersão de sementes, formação de um banco de sementes persistente e alelopatia (estratégia que consiste na produção de substancias químicas que impedem a emergência ou sobrevivência de outras plantas nas proximidades).


Polygonum aviculare é uma planta anual cujo período de floração vai de março a novembro, dependendo da localização. É, principalmente, uma infestante das culturas de primavera e um dos problemas mais sérios na grande variedade de culturas dos climas temperados, sendo uma das poucas ervas que são igualmente abundantes entre as culturas cerealíferas e as culturas de folhas larga, nomeadamente os legumes. É muito frequente em hortas, especialmente em climas mediterrânicos, também em pastagens e viveiros. Prefere os solos nitrogenados e algo húmidos mas também ocorre em espaços urbanos, nas rachas dos pavimentos, em solos pobres e compactados onde outras plantas encontram dificuldades em sobreviver. 

Em Portugal continental, onde é autóctone, ocorre em quase todo o território sendo mais rara no Alentejo. Também é nativa no arquipélago da Madeira, mas é exótica nos Açores.


Tal como as outras espécies do seu género os caules herbáceos são formados por nós e entrenós. Os caules desta espécie não têm pelos e são geralmente decumbentes, ou seja, desenvolvem-se sobre o solo apenas com a extremidade ascendente. Estes caules são bastante longos, podendo atingir cerca de 1 metro de comprimento, por vezes formando grandes tapetes. 


Os caules apresentam estrias longitudinais e ramificam-se quer na base quer nos nós que entram em contacto com o solo.  Também esta espécie apresenta duas estipulas membranosas que estão unidas e enroladas em torno dos caules nos nós, no ponto onde se inserem as folhas, escondendo o curto pecíolo e formando uma estrutura cilíndrica denominada ócrea. 

Ócrea

A ócrea de Polygonum aviculare é transparente, por vezes de aparência esbranquiçada e os dois segmentos que a constituem são longos, estreitos e pontiagudos.


As folhas inserem-se de forma alternada mas variam em tamanho e forma na mesma planta, podendo ser lanceoladas ou elípticas com ápice agudo ou arredondado. São de cor verde ou verde-acinzentado ou glaucas, inteiras e glabras.


As flores são muito pequenas e nascem na axila das folhas, estando muitas vezes parcialmente envolvidas pela ócrea. Tanto podem ser solitárias como crescerem em grupos pouco numerosos de 2 a 8 flores. Estas inflorescências podem distribuir-se equitativamente ao longo dos caules ou ser mais numerosas na parte superior dos mesmos.


O perianto de cada flor é constituído por 5 lóbulos em que sépalas e pétalas são indistintas sendo, por isso, denominados tépalas. As tépalas têm forma oblonga e são verdes com margens brancas ou rosadas e estão parcialmente unidas pela base, formando um tubo que encerra os órgãos reprodutores, masculinos e femininos.
A maioria das fontes sugere que esta espécie se reproduz por autofecundação. Contudo, a presença de flores abertas indica que também pode ocorrer a polinização cruzada. Existem registos de visitas a estas flores por mais de 36 tipos de insetos que se alimentam do néctar. Tendo em conta o hábito prostrado de muitos dos caules e a consequente existência de flores ao nível do solo, os insetos que visitam esta planta tanto podem ser voadores como terrestres.

Numa mesma planta existem flores cleistogâmicas (flores fechadas, de autofecundação obrigatória) e flores casmogâmicas (flores abertas em que predomina a polinização cruzada). No que diz respeito às flores casmogâmicas, apenas uma flor abre de cada vez em cada uma das inflorescências. A ântese ocorre de manha cedo e cada flor permanece aberta durante um período variável que vai de 1 a 4 dias, fechando definitivamente ao fim do dia. Estes dois tipos de flores partilham características comuns. 

O ovário tem 3 estiletes muito curtos que terminam em estigmas com a ponta arredondada. O ovário posiciona-se sobre um pequeno pedúnculo (ginóforo) compreendido entre o androceu e o gineceu, de forma que os estigmas alcançam o mesmo nível dos estames do círculo interior.

Os estames organizam-se em dois verticilos (5 num circulo interior e 3 num circulo exterior) e o seu número total varia entre 5 e 8 porque ocasionalmente o verticilo exterior não existe. Os 5 estames interiores têm filetes engrossados com bases achatadas e são mais compridos que os 3 estames exteriores os quais tem filetes filiformes. De notar que o numero de estames pode alterar-se durante o período vegetativo. 

As flores autopolinizam-se quando os estames internos se curvam sobre os estigmas. Os restantes estames alternam com os segmentos do perianto e dobram-se para fora garantindo assim a polinização cruzada se qualquer inseto visitar a flor. 
Estas flores podem ser consideradas protândricas (quando as anteras ficam maduras e libertam o pólen antes de os estigmas se tornarem recetivos) embora normalmente ocorra um curto período em que as fases férteis masculinas e femininas se sobrepõem. Quando as tépalas se fecham e os estames são forçados a entrar em contacto com os estigmas, regista-se um lapso de tempo em que as flores ainda não polinizadas têm uma segunda oportunidade, ocorrendo então a autopolinização. 

Os nectários habitualmente bem desenvolvidos noutras espécies de Polygonum não existem em Polygonum aviculare, mas regista-se a presença de néctar o que leva a crer que o mesmo poderá ser segregado pelas células da base dos filetes estaminais.

Sementes de Polygonum aviculare. Foto de RASBAK (pormenor)
Fonte Wikimedia Commons
As sementes são aquénios que se desenvolvem envolvidos pelas tépalas que formam o perianto e nele permanecem inclusos ou ligeiramente exsertos na maturação. Têm cor castanha mais ou menos escura e são triangulares, com as faces concavas.
Uma só planta de Polygonum aviculare pode produzir entre 125 a 6400 sementes dependendo da disponibilidade de recursos e o nível de competição com outras espécies. Estas sementes são muito resistentes, quer ao pisoteio, quer aos ácidos digestivos dos animais que as ingerem e também são impermeáveis à ação da água. A dispersão é feita por aves, mamíferos e também pela água. Podem ainda ser levadas para outros locais pela maquinaria agrícola.
Estes aquénios entram em dormência com o calor. Assim, necessitam de ser submetidos ao frio do inverno para poderem germinar, sendo que as temperaturas baixas quebram a dormência ao passo que as temperaturas altas do verão a reforçam.
As plantas começam a produzir sementes cerca de dois meses após a germinação.

Polygonum aviculare é definida como uma espécie altamente polimórfica. Existem consideráveis variações genéticas nos seus hábitos de crescimento, floração, número de sementes e tempo de vida. Devido à sua extensa plasticidade fenotípica diferentes variedades têm sido descritas e consideradas como espécies separadas. Assim, tem sido sujeita a diversas classificações taxonómicas ao longo dos anos. Algumas autoridades consideram a divisão de Polygonum aviculare em varias subespécies, enquanto outras a identificam como uma única espécie, embora muito polimórfica. De forma geral, as subespécies descritas são muito difíceis de diferenciar. As diferenças  relacionam-se com a forma das folhas (mais estreitas ou mais largas), a constância no tamanho das folhas (mesmo tamanho ou tornando-se mais pequenas à medida que se aproximam do topo dos caules), o comprimento relativo das tépalas e a forma do seu ápice (encapuzado ou plano).

O nome específico aviculare vem do latim aviculus, diminutivo de avis (= uma ave), referindo-se ao facto destas sementes servirem de alimento a muitos dos nossos pequenos pássaros.


Polygonum aviculare é, desde há muito, utilizada como planta medicinal. Na literatura especializada foi classificada como "analgésico, antipiretico, antisséptico, adstringente, colagogo (com ação sobre a vesícula biliar), emoliente, diurético, emético, expectorante, hemostático, laxante, tónico, vasoconstritor, vermífugo e vulnerario". A erva tem efeitos benéficos contra problemas cardiovasculares, infecções (Tunon et al., 1995) e deficiências de imunidade (Plachcinska et al., 1984; Stajner et al., 1997). Consequentemente, a erva é um dos ingredientes usados em suplementos comercializados para tratar doenças relacionadas. Contém produtos químicos antimicrobianos gerais (Cowan 1999), glicosídeos, flavonóides, mucopolissacarídeos (Wren 1992; Kim et al. 1994; Vysochina 1999; Smolarz, 2002).
Fotos: Zambujeira e Serra do Calvo/Lourinhã