"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Polygonum aviculare L.

Nomes comuns:
Centonódia, erva-da-ferradeira, erva-da-muda, corriola-bastarda, 
erva-dos-passarinhos, erva-da-saúde, erva-das-galinhas, 
língua-de-perdiz, persicária-sempre-noiva, 
sanguinária, sanguinha, sempre-noiva-dos-modernos.


Polygonum aviculare é a terceira espécie do género Polygonum (familia Polygonaceae) que encontrei nesta região, juntando-se a outras duas já aqui referenciadas, nomeadamente Polygonum maritimum e Polygonum lapathifolium.
Polygonum aviculare é uma espécie nativa da Europa ou Eurásia. No entanto, hoje em dia é uma das plantas mais disseminadas no planeta. Esta distribuição generalizada é atribuída a várias características da planta, nomeadamente o elevado polimorfismo genético, grande plasticidade fenotípica, produção prolífica de sementes, múltiplos meios de dispersão de sementes, formação de um banco de sementes persistente e alelopatia (estratégia que consiste na produção de substancias químicas que impedem a emergência ou sobrevivência de outras plantas nas proximidades).


Polygonum aviculare é uma planta anual cujo período de floração vai de março a novembro, dependendo da localização. É, principalmente, uma infestante das culturas de primavera e um dos problemas mais sérios na grande variedade de culturas dos climas temperados, sendo uma das poucas ervas que são igualmente abundantes entre as culturas cerealíferas e as culturas de folhas larga, nomeadamente os legumes. É muito frequente em hortas, especialmente em climas mediterrânicos, também em pastagens e viveiros. Prefere os solos nitrogenados e algo húmidos mas também ocorre em espaços urbanos, nas rachas dos pavimentos, em solos pobres e compactados onde outras plantas encontram dificuldades em sobreviver. 

Em Portugal continental, onde é autóctone, ocorre em quase todo o território sendo mais rara no Alentejo. Também é nativa no arquipélago da Madeira, mas é exótica nos Açores.


Tal como as outras espécies do seu género os caules herbáceos são formados por nós e entrenós. Os caules desta espécie não têm pelos e são geralmente decumbentes, ou seja, desenvolvem-se sobre o solo apenas com a extremidade ascendente. Estes caules são bastante longos, podendo atingir cerca de 1 metro de comprimento, por vezes formando grandes tapetes. 


Os caules apresentam estrias longitudinais e ramificam-se quer na base quer nos nós que entram em contacto com o solo.  Também esta espécie apresenta duas estipulas membranosas que estão unidas e enroladas em torno dos caules nos nós, no ponto onde se inserem as folhas, escondendo o curto pecíolo e formando uma estrutura cilíndrica denominada ócrea. 

Ócrea

A ócrea de Polygonum aviculare é transparente, por vezes de aparência esbranquiçada e os dois segmentos que a constituem são longos, estreitos e pontiagudos.


As folhas inserem-se de forma alternada mas variam em tamanho e forma na mesma planta, podendo ser lanceoladas ou elípticas com ápice agudo ou arredondado. São de cor verde ou verde-acinzentado ou glaucas, inteiras e glabras.


As flores são muito pequenas e nascem na axila das folhas, estando muitas vezes parcialmente envolvidas pela ócrea. Tanto podem ser solitárias como crescerem em grupos pouco numerosos de 2 a 8 flores. Estas inflorescências podem distribuir-se equitativamente ao longo dos caules ou ser mais numerosas na parte superior dos mesmos.


O perianto de cada flor é constituído por 5 lóbulos em que sépalas e pétalas são indistintas sendo, por isso, denominados tépalas. As tépalas têm forma oblonga e são verdes com margens brancas ou rosadas e estão parcialmente unidas pela base, formando um tubo que encerra os órgãos reprodutores, masculinos e femininos.
A maioria das fontes sugere que esta espécie se reproduz por autofecundação. Contudo, a presença de flores abertas indica que também pode ocorrer a polinização cruzada. Existem registos de visitas a estas flores por mais de 36 tipos de insetos que se alimentam do néctar. Tendo em conta o hábito prostrado de muitos dos caules e a consequente existência de flores ao nível do solo, os insetos que visitam esta planta tanto podem ser voadores como terrestres.

Numa mesma planta existem flores cleistogâmicas (flores fechadas, de autofecundação obrigatória) e flores casmogâmicas (flores abertas em que predomina a polinização cruzada). No que diz respeito às flores casmogâmicas, apenas uma flor abre de cada vez em cada uma das inflorescências. A ântese ocorre de manha cedo e cada flor permanece aberta durante um período variável que vai de 1 a 4 dias, fechando definitivamente ao fim do dia. Estes dois tipos de flores partilham características comuns. 

O ovário tem 3 estiletes muito curtos que terminam em estigmas com a ponta arredondada. O ovário posiciona-se sobre um pequeno pedúnculo (ginóforo) compreendido entre o androceu e o gineceu, de forma que os estigmas alcançam o mesmo nível dos estames do círculo interior.

Os estames organizam-se em dois verticilos (5 num circulo interior e 3 num circulo exterior) e o seu número total varia entre 5 e 8 porque ocasionalmente o verticilo exterior não existe. Os 5 estames interiores têm filetes engrossados com bases achatadas e são mais compridos que os 3 estames exteriores os quais tem filetes filiformes. De notar que o numero de estames pode alterar-se durante o período vegetativo. 

As flores autopolinizam-se quando os estames internos se curvam sobre os estigmas. Os restantes estames alternam com os segmentos do perianto e dobram-se para fora garantindo assim a polinização cruzada se qualquer inseto visitar a flor. 
Estas flores podem ser consideradas protândricas (quando as anteras ficam maduras e libertam o pólen antes de os estigmas se tornarem recetivos) embora normalmente ocorra um curto período em que as fases férteis masculinas e femininas se sobrepõem. Quando as tépalas se fecham e os estames são forçados a entrar em contacto com os estigmas, regista-se um lapso de tempo em que as flores ainda não polinizadas têm uma segunda oportunidade, ocorrendo então a autopolinização. 

Os nectários habitualmente bem desenvolvidos noutras espécies de Polygonum não existem em Polygonum aviculare, mas regista-se a presença de néctar o que leva a crer que o mesmo poderá ser segregado pelas células da base dos filetes estaminais.

Sementes de Polygonum aviculare. Foto de RASBAK (pormenor)
Fonte Wikimedia Commons
As sementes são aquénios que se desenvolvem envolvidos pelas tépalas que formam o perianto e nele permanecem inclusos ou ligeiramente exsertos na maturação. Têm cor castanha mais ou menos escura e são triangulares, com as faces concavas.
Uma só planta de Polygonum aviculare pode produzir entre 125 a 6400 sementes dependendo da disponibilidade de recursos e o nível de competição com outras espécies. Estas sementes são muito resistentes, quer ao pisoteio, quer aos ácidos digestivos dos animais que as ingerem e também são impermeáveis à ação da água. A dispersão é feita por aves, mamíferos e também pela água. Podem ainda ser levadas para outros locais pela maquinaria agrícola.
Estes aquénios entram em dormência com o calor. Assim, necessitam de ser submetidos ao frio do inverno para poderem germinar, sendo que as temperaturas baixas quebram a dormência ao passo que as temperaturas altas do verão a reforçam.
As plantas começam a produzir sementes cerca de dois meses após a germinação.

Polygonum aviculare é definida como uma espécie altamente polimórfica. Existem consideráveis variações genéticas nos seus hábitos de crescimento, floração, número de sementes e tempo de vida. Devido à sua extensa plasticidade fenotípica diferentes variedades têm sido descritas e consideradas como espécies separadas. Assim, tem sido sujeita a diversas classificações taxonómicas ao longo dos anos. Algumas autoridades consideram a divisão de Polygonum aviculare em varias subespécies, enquanto outras a identificam como uma única espécie, embora muito polimórfica. De forma geral, as subespécies descritas são muito difíceis de diferenciar. As diferenças  relacionam-se com a forma das folhas (mais estreitas ou mais largas), a constância no tamanho das folhas (mesmo tamanho ou tornando-se mais pequenas à medida que se aproximam do topo dos caules), o comprimento relativo das tépalas e a forma do seu ápice (encapuzado ou plano).

O nome específico aviculare vem do latim aviculus, diminutivo de avis (= uma ave), referindo-se ao facto destas sementes servirem de alimento a muitos dos nossos pequenos pássaros.


Polygonum aviculare é, desde há muito, utilizada como planta medicinal. Na literatura especializada foi classificada como "analgésico, antipiretico, antisséptico, adstringente, colagogo (com ação sobre a vesícula biliar), emoliente, diurético, emético, expectorante, hemostático, laxante, tónico, vasoconstritor, vermífugo e vulnerario". A erva tem efeitos benéficos contra problemas cardiovasculares, infecções (Tunon et al., 1995) e deficiências de imunidade (Plachcinska et al., 1984; Stajner et al., 1997). Consequentemente, a erva é um dos ingredientes usados em suplementos comercializados para tratar doenças relacionadas. Contém produtos químicos antimicrobianos gerais (Cowan 1999), glicosídeos, flavonóides, mucopolissacarídeos (Wren 1992; Kim et al. 1994; Vysochina 1999; Smolarz, 2002).
Fotos: Zambujeira e Serra do Calvo/Lourinhã



domingo, 23 de julho de 2017

Polygonum lapathifolium L.

Nomes comuns:
Erva-bastarda; erva-pessegueira; mal-casada

Polygonum lapathifolium
Polygonum lapathifolium pertence à família Polygonaceae e posso dizer que esta é uma das mais complexas em termos de taxonomia. Mas, afinal, não é o que ultimamente se tem dito da maioria das famílias e géneros botânicos?
As plantas apresentam características tão variadas e complexas que se torna cada vez mais difícil decidir a melhor forma de as agrupar. A classificação dos seres vivos, conhecida como taxonomia, teve as suas origens na Antiga Grécia. Foi reformulada e vestida de novo há quase 300 anos, quando Linnaeus desenvolveu o sistema de nomenclatura binominal. Este sistema ainda hoje é utilizado, apesar das profundas transformações que, entretanto, sofreu. Os microscópios eletrónicos permitem que os cientistas observem os organismos com detalhe muito maior e o sequenciação de todos os genomas permite que se façam distinções mais exatas entre organismos intimamente relacionados. 

A classificação antiga baseou-se essencialmente em critérios morfológicos mas o desenvolvimento das técnicas de ADN revelam grande quantidade de informações sobre a semelhança e relação entre os organismos que, em muitos casos, podem ir contra a classificação morfológica tradicional. Infelizmente, a tecnologia de ADN ainda é muito cara e demorada.
  
Os desenvolvimentos tecnológicos e científicos nos últimos 50 anos também mudaram o foco de biólogos. Linnaeus acreditava que as espécies faziam parte do plano de criação divina (ainda não existia a teoria da evolução e da seleção natural desenvolvida por Charles Darwin) mas os cientistas de hoje querem entender a natureza da vida e o processo da evolução e baseiam-se no princípio da ascendência comum. 

Sabemos hoje que Linnaeus subestimou o número de plantas da Terra. Posteriormente mais e mais espécies foram sendo descritas em jornais e publicações. Na ignorância do trabalho uns dos outros, por vezes, as mesmas espécies acabaram sendo descritas e registadas com nomes diferentes por dois ou mais autores, gerando uma confusão que chegou aos dias de hoje. Essa é apenas uma das razões que contribui para a listas de sinónimos bastante extensas de algumas espécies. 

A verdade é que nem todos os problemas vêm do passado. Apesar dos novos e sofisticados meios que podem ser postos ao dispor dos cientistas faltam, muitas vezes, os fundos que sustentem e possibilitem as investigações. Outro problema é a falta de consenso que resulta da escolha dos caracteres para análise que, sendo múltiplos, nem sempre são coincidentes, cada cientista tendo a sua própria opinião sobre quais são os fundamentais, pelo que as conclusões também resultam diferentes. Todos concordam que é preciso aperfeiçoar os sistemas de classificação mas, perante a grandeza da tarefa, o consenso não será fácil de conseguir, a breve prazo.

Polygonum lapathifolium
A família Polygonaceae inclui de 43 a 55 géneros, abrangendo de 1100 a 1200 espécies que ocorrem numa grande variedade de habitats situados maioritariamente em zonas temperadas do hemisfério norte com algumas espécies em regiões tropicais e subtropicais. 
Os membros de Polygonaceae são morfologicamente muito variados. Desde que a família foi reconhecida por Jussieu em 1789 a taxonomia de Polygonaceae tem sido continuamente revista. Em causa estão, sobretudo, a circunscrição de subfamílias, tribos e géneros. Muito resumidamente, numa das mais recentes revisões, esta família foi dividida em duas subfamílias, Eriogonoideae e Polygonoideae.

Polygonum, grupo a que pertence a espécie em questão no "post" de hoje, Polygonum lapathifolium, é o género mais alargado da subfamília Polygonoideae
Linnaeus estabeleceu o género Polygonum em 1754 como uma unidade heterogénea e alargada, nela incluindo diversas espécies não relacionadas e que não sabia onde mais poderia colocar. Desde logo, Polygonum passou a ser considerado um dos grupos mais problemáticos e a representar um grande desafio para os taxonomistas. 
Não cabe aqui a resenha das diferentes interpretações e consequentes alterações que Polygonum sofreu ao longo da sua história, em que foi subdivido em números variáveis de seções e subseções, desmembrado em diferentes géneros e tratado como tribo Polygoneae

Em "sentido amplo", Polygonum compõe-se presentemente de grupos mais pequenos de "sentido restrito", situação confirmada por estudos moleculares recentes. 
Dentro do sentido amplo de Polygonum incluem-se vários géneros sendo que um deles é o género Polygonum (em sentido restrito) e também o género Persicaria, entre outros. Menciono aqui o género Persicaria (descrito por Miller em 1754) porque a espécie Polygonum lapathifolium é incluída nesse género por alguns botânicos/sistemas e classificada como Persicaria lapathifolia
O género Persicaria é mais um pomo de discórdia, sendo considerado por alguns como parte de Polygonum (no sentido amplo) ou sinónimo de Polygonum (no sentido restrito) e por outros, como género de direito próprio, fazendo parte da tribo Persicarieae. Todo o historial é, na realidade, muito complicado.
  
Enfim, depois de dissecado todo o material disponível sobre o assunto, a única conclusão a que se pode chegar é que não há conclusão nenhuma. Ou seja,  a exacta circunscrição e classificação infragenérica de Persicaria Mill. e Polygonum L. ainda são tema de debate.

Segundo o portal Flora-on (Sociedade Portuguesa de Botânica) ocorrem em Portugal 13 espécies do género Polygonum, na sua maioria autóctones. 
Polygonum lapathifolium, espécie autóctone de Portugal continental e Madeira, naturalizada nos Açores.
Polygonum lapathifolium é uma espécie autóctone de Portugal continental e arquipélago da Madeira. Também ocorre no arquipélago dos Açores, embora como espécie introduzida e naturalizada.

De forma geral Polygonum lapathifolium distribui-se pelas regiões temperadas do hemisfério norte (Europa, oeste asiático) e África do Sul.

Polygonum lapathifolium
Esta espécie infestante prefere os locais húmidos ou inundados, nitrogenados e em pleno sol.
Esta é uma infestante anual, especialmente problemática em culturas de regadio na primavera e verão. Vive em habitats perturbados por atividades humanas, preferencialmente húmidos, não só em solos cultivados mas também ao longo de margens de cursos de água e em valas de escoamento. É particularmente abundante em solos ricos em nutrientes e de consistência friável. Consegue conviver com situações pontuais de redução de humidade e nutrientes mas é exigente no que diz respeito à exposição solar, sendo intolerante à sombra.
Polygonum lapathifolium
Os caules, finos e de cor avermelhada, são formados por nós e entrenós.
O sistema radicular de Polygonum lapathifolium é superficial e fibroso. 
Os caules são herbáceos e crescem de forma ereta ou ascendente, podendo chegar aos 80 cm de altura. São hastes finas, lisas e lustrosas, mais ou menos ramificadas, de cor verde ou avermelhada e formadas por nós e entrenós.
Vem a propósito referir que o termo Polygonum deriva do grego: “poly” = muitos e “gonu” = joelhos, referindo-se aos múltiplos nós inchados presentes na constituição dos caules.
Polygonum lapathifolium
Algumas folhas apresentam uma mancha escura em forma de V.
As folhas dispõem-se de forma alternada, ligando-se ao caule por um pecíolo curto; são inteiras e lanceoladas ou elípticas, mais largas perto da base e estreitando progressivamente para o ápice, com alguns pelos curtos e rígidos protegendo as margens do limbo. Algumas, mas não todas, apresentam uma mancha escura na pagina superior do limbo em forma de V . 
Polygonum lapathifolium
Página superior da folha em que se notam as glândulas mencionadas no texto
 e ainda os bordos protegidos por pelos curtos e rígidos.
As folhas podem ser glabras ou ligeiramente pubescentes, com indumento de pelos curtos e densos na página superior e pelos curtos, espessos e emaranhados na página inferior ou apenas ao longo das nervuras. A superfície das folhas apresenta inconspícuas glândulas resinosas, translucidas ou amareladas, em ambas as páginas ou apenas na inferior.
Polygonum lapathifolium
As ócreas são formadas por duas estípulas unidas e que envolvem os nós do caule.
Tal como é característico da família Polygonaceae, esta espécie possui duas estipulas que são membranosas e estão unidas e enroladas em torno dos caules no ponto onde as folhas se inserem no caule, fundindo-se com ele e formando uma estrutura cilíndrica denominado ócrea. As ócreas de Polygonum lapathifolium apresentam nervuras tipicamente proeminentes e avermelhadas, com a borda truncada ou com cílios curtos, tornando-se mais escuras e escamando com a idade.
Polygonum lapathifolium - Ócrea

NOTA sobre as estípulas:
Apenas cerca de um terço das angiospermas (grupo das plantas que dão fruto a partir da fecundação do ovário de uma flor, o maior e mais moderno grupo de plantas, englobando cerca de 230 mil espécies) possuem estipulas. Estas aparecem aos pares e variam de espécie para espécie, em tamanho e morfologia; podem ser estruturas laminares, glândulas, pelos, espinhos ou escamas; algumas são caducas e outras são perenes; por vezes são insignificantes, outras vezes são de tal forma desenvolvidas que se confundem com verdadeiras folhas, ajudando no processo da fotossíntese; podem transformar-se em gavinhas, para ajudar no crescimento vertical da planta ou em espinhos, como forma de reduzir a predação por vertebrados herbívoros; em muitas espécies as estipulas são pequenas e residuais, sem nenhuma função óbvia; noutras espécies evoluíram para nectários extraflorais atraindo formigas (com as quais estabelecem interações mutualistas, de que beneficiam tanto as plantas como as formigas).
A função primitiva das estipulas permanece algo obscura e a maioria das angiospermas que não as tem, não parece sentir-lhes a falta. Contudo, a ausência destas estruturas é tão importante como a sua presença, pois é um fator fundamental na identificação das espécies.

Polygonum lapathifolium - inflorescência
As flores de Polygonum lapathifolium agrupam-se em inflorescências cilíndricas, do tipo espiciforme, em que as flores sésseis se inserem de forma densa sobre um eixo alongado geralmente coberto de pequenas glândulas, assemelhando-se a uma espiga com cerca de 5 a 7 cm de comprimento. Estas inflorescências são longas, esguias e flexíveis, curvando-se para baixo de forma bastante atraente. Esta característica é única e marca a diferença em relação a outras espécies do mesmo género que apresentam inflorescências mais ou menos eretas.
Polygonum lapathifolium - flores agrupadas na inflorescência
As flores nunca abrem por completo. Cada pequena flor, com apenas cerca de 3 mm de comprimento apresenta 4 tépalas unidas na base. As tépalas são segmentos indistintos que constituem o perianto, fazendo as vezes de sépalas e pétalas e em cujo interior se situam os órgãos reprodutores masculinos e femininos. As tépalas apresentam uma gradação de cores que vai desde o branco até ao rosa-claro passando pelo esverdeado e apresentam glândulas amareladas na sua superfície. 
Polygonum lapathifolium
As setas indicam o contorno das nervuras das tépalas em forma de ancora, característico desta espécie.
Os pequenos pontos amarelos são as glândulas.
De forma característica, as tépalas apresentam uma nervação distintamente bifurcada, as nervuras curvando-se para baixo perto do ápice, com contorno semelhante a uma âncora. Este é um detalhe morfológico distintivo e único nesta espécie. 
O ovário tem 2 estiletes ligados pela base. Os estames são 6.

A floração ocorre desde o fim da primavera até ao fim do verão e dura cerca de mês e meio a dois meses.
As tépalas mantêm-se na planta durante a maturação dos frutos. Estes são aquénios que uma vez maduros apresentam cor muito escura e são brilhantes, de forma ovóide, por vezes grosseiramente triangulares e com os lados ligeiramente côncavos.
Polygonum lapathifolium
Frutos imaturos

Polygonum lapathifolium
As setas indicam os frutos maduros

Esta planta ressemeia-se naturalmente em locais que lhe sejam favoráveis, sendo esta a única forma de dispersão da espécie. Em média cada planta produz cerca de 800 a 850 sementes, as quais germinam principalmente durante a primavera. Para que a germinação se processe as sementes necessitam de passar pelos frios do inverno, quebrando a dormência.

Em face da sua ampla distribuição, hábito infestante e a sua relativa intolerância à sombra, Polygonum lapathifolium é potencialmente prejudicial em qualquer tipo de cultura de sementeira onde geralmente ocorre, brotando ao mesmo tempo que a sementeira se desenvolve.
A juntar aos seus efeitos competitivos, Polygonum lapathifolium serve de hospedeira a um significativo número de pragas prejudiciais à agricultura, nomeadamente o vírus do mosaico do pepino (CMV), Fusarium oxysporum que ataca as culturas do feijão, tomate ou espinafre, nematóides da haste da cebola, entre outros.
Em contrapartida, esta espécie é tremendamente importante para a vida selvagem. O néctar segregado pelas flores atrai moscas, vespas, abelhas e até pequenas borboletas. Uma enorme variedade de besouros e larvas de borboletas alimentam-se das folhas e outras partes da planta. Nas zonas húmidas as sementes são também uma fonte importante de alimento para varias espécies de patos e outras aves mais pequenas. Contudo, esta espécie não é do agrado dos herbívoros mamíferos devido ao seu sabor amargo e apimentado.

Polygonum lapathifolium pode ser confundida com Polygonum persicaria que é também autóctone no nosso país e que, muitas vezes, ocorre nos mesmo habitats.
Diferença nas ócreas das duas espécies que podem ser confundidas.
Foto da ócrea de Poligonum persicaria de Miguel Porto/Flora-on
A diferença mais óbvia entre as duas espécies reside na ócrea que em Polygonum persicaria é claramente ciliada ao contrário do que acontece com Polygonum lapathifolium

Em tempos idos, Polygonum lapathifolium foi usada em medicina tradicional. À semelhança do que acontece com outras espécies da mesma família esta planta contém compostos orgânicos com ação terapêutica no tratamento de algumas patologias. As propriedades antioxidantes, hepatoprotetoras e anti-inflamatórias devem-se à presença de substâncias químicas complexas de composição variada produzidas através dos metabólitos secundários e que existem nas partes aéreas da planta, nomeadamente Calconaflavonóides e ácido gálico.

Os metabólitos secundários:
As plantas sintetizam um enorme número de químicos, de natureza muito diversificada. Estes químicos podem ser divididos em metabólitos primários e secundários.

Os metabólitos primários incluem os químicos essenciais para o crescimento e desenvolvimento de todas as plantas, como a fotossíntese ou o metabolismo respiratório.

Os metabólitos secundários são estrutural e quimicamente muito mais diversificados que os metabólitos primários e referem-se a compostos presentes em células especializadas que, não sendo diretamente essenciais, são, ainda assim, necessários para a sobrevivência das plantas.
Os metabólitos secundários são capazes de responder eficazmente às situações de stress, aparentemente atuando como defesa (contra herbívoros, micróbios, viroses ou plantas concorrentes) como sinalização (para atrair polinizadores e animais dispersores das sementes) e também como antioxidantes e protetores da radiação solar.

Existem milhares de metabólitos secundários e são eles os responsáveis pelas propriedades terapêuticas registadas em tantas plantas consideradas medicinais.

Fotos: Abelheira/Lourinhã



terça-feira, 6 de junho de 2017

Scrophularia scorodonia L.

Nomes vulgares:
Escrofulária; erva-do-mau-olhado; japão; trolha

Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Foto de Javier Martin
Fonte: Wikimedia commons
Scrophularia scorodonia, muitas vezes apelidada de erva-do-mau olhado, já não consta das listas de plantas modernamente “prescritas” como antídoto para invejas, energias negativas e quejandos. Como diz o povo, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e até as ervas especializadas em quebrar feitiços podem ser vítimas da modernidade. Também não há duvida que esta planta - em tempos idos, muito usada em fitoterapia tradicional por lhe serem atribuídas propriedades vulnerárias e anti-inflamatórias - passou de moda, tal como tem acontecido a tantas outras que foram caindo no esquecimento. Apesar das suas belas folhas de um tom verde musgoso, facilmente passa despercebida no meio de outras porque as suas flores, apesar de muito interessantes, são pequenas e pouco compactas. Não é, pois, uma planta que se destaque e isso paga-se em falta de popularidade.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - hábito
Scrophularia scorodonia é uma herbácea perene e rizomatosa que vive em habitats húmidos, em situação de pleno sol ou meia sombra, nomeadamente na orla dos bosques, nas margens de rios e ribeiros ou em valas de escoamento de águas da chuva. Não é uma espécie seletiva quanto às condições edáficas e embora mostre alguma preferência por solos moderadamente enriquecidos com nitrogénio não está presente em solos muito fertilizados. 
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
É uma espécie essencialmente de climas temperados. A sua distribuição natural estende-se pela Europa atlântica, nomeadamente Sul da Grã-Bretanha, Oeste de França, Espanha,  Portugal (incluindo as ilhas) e também noroeste de Marrocos.
No que diz respeito à Península Ibérica esta espécie apresenta duas formas com caracteres morfológicos bem definidos. São classificadas como variedades por serem variações insuficientes para serem consideradas subespécies. Assim, temos: 
1- var. scorodonia:  
Esta é a variedade mais comum. É nativa de todo o território nacional desde o continente até aos arquipélagos de Madeira e Açores. Esta variedade Integra plantas claramente pubescentes à primeira vista. Os caules, a página inferior das folhas e os pecíolos são densamente pubescentes, com pelos patentes (inseridos segundo um angulo de cerca de 90 graus com o eixo). 
2- var. glabrescens: 
Esta variedade só pode ser encontrada no sudoeste da Península Ibérica onde é endémica. Caracteriza-se pela ausência de pubescência, à primeira vista. Contudo, ao serem observadas ao microscópio nota-se-lhes uma pubescência rala e inconspícua de pelos muito curtos. No que diz respeito a Portugal, a Flora Iberica regista a presença desta variedade no Alentejo e Estremadura.

NOTA:
Não devemos confundir os termos “variedade” e “cultivar” os quais, botanicamente falando, não são sinónimos.
Variedade (var.) é um grau dentro da escala taxonómica e que se situa abaixo de espécie. 
Cultivar, sendo usado como substantivo, refere-se a uma variedade híbrida obtida mediante cultivo (do inglês, contração das palavras cultivated + variety).

Scrophularia scorodonia var. scorodonia:
Distribuição em Portugal continental de Scrophularia scorodonia var . scorodonia
Fonte: Flora Digital de Portugal
Jardim Botanico da UTAD
Scrophularia scorodonia var. scorodonia tem caules ascendentes ou eretos, de seção quadrangular, pouco ramificados e densamente pubescentes. O seu crescimento varia entre os 25 e os 150 cm de altura.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - caule
Foto de 
Kriss de Niort
Fonte
As folhas dispõem-se nos caules de forma oposta, aos quais se ligam por pecíolos curtos, embora mais compridos nas folhas inferiores que nas superiores.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia - folhas
As folhas são inteiras, com limbo rugoso de cor verde-escuro, de forma ovado-lanceolada ou triangular-lanceolada, com ápice agudo e a base em forma de coração. As margens são duplamente recortadas, geralmente crenadas. As nervuras são muito marcadas e distribuem-se no limbo de forma muito abundante e reticulada, ou seja, cruzando-se umas sobre as outras. A página superior das folhas pode ser glabra ou escassamente pubescente mas a página inferior apresenta pelos longos e bastos, sobretudo ao longo das nervuras.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
As flores dispõem-se em inflorescências que crescem na axila de brácteas foliáceas. As inflorescências estão bem apartadas umas das outras e são do tipo cimeira, situação em que o eixo principal ou pedúnculo é de crescimento limitado terminando numa flor. Neste caso temos cimeiras bíparas ou dicásios pois abaixo da flor terminal, nas axilas das duas bractéolas subjacentes e que ultrapassam em crescimento o eixo principal desenvolvem-se dois eixos laterais opostos que também terminam numa flor. Este padrão repete-se nos eixos inferiores laterais, formando dicásios compostos. As primeiras flores a abrir são as que se encontram no topo da inflorescência.
Os pelos que cobrem os pedúnculos são finos, curtos, por vezes ligeiramente mais longos e cerdosos.
As brácteas assemelham-se às folhas e são mais compridas que os pedúnculos.
As bractéolas, com cerca de 1 cm, são linear-lanceoladas, densamente pubescentes ou hispidas, glandulosas, muito mais curtas que as cimeiras.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia

Emergindo do interior da flor é bem visível o estigma, ansiando pela fertilização.

As flores são pequenas e fazem lembrar um animalzinho curioso e atrevido. 
A corola é composta por 5 pétalas orbiculares com as margens membranáceas, firmes e translucidas que se unem formando um tubo curto e globoso. Este abre-se para o exterior de forma peculiar: duas pétalas de cor purpura, separadas apenas na parte superior, formam o chamado lábio superior e erguem-se como se fossem duas orelhas arrebitadas; as restantes pétalas, de cor purpúreo-esverdeadas, estão dobradas para baixo deixando bem à vista os órgãos reprodutores. 
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
As flores apresentam órgãos de reprodução masculinos e femininos e são polinizadas por insetos que recolhem o néctar segregado numa estrutura em forma de anel situada na base da corola aberta, entre o androceu e o gineceu.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Para impedir a fertilização pelo seu próprio pólen estas flores socorrem-se de uma estratégia que consiste na separação temporal entre as funções masculinas e femininas. Mais especificamente, os órgãos sexuais femininos são os primeiros a amadurecer e a entrarem em atividade. Só quando estes deixam de estar recetivos é que é libertado o pólen.
O androceu consta de 4 estames férteis com anteras amarelas e ainda um estaminódio bem visível na abertura da corola, unido às pétalas do lábio superior e cuja estrutura é ligeiramente mais larga que comprida, arredondada ou elíptica, escamosa e esverdeada, podendo tornar-se avermelhada. O estaminódio é uma estrutura vestigial de um estame que por uma qual quer razão, perdeu a sua função original de produzir pólen.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Embora cerca de 30% dos géneros da família Scrophulariaceae (a que pertence Scrophularia scorodonia) possua estaminódios ainda não foi possível determinar o padrão evolutivo destas estruturas que, dependendo das espécies, podem ser pequenos, grandes ou enormes. É provável que as espécies que possuem estaminódios de menor tamanho os venham a perder, estando eles condenados a desaparecer no seu processo de evolução. Contudo, parece que os estaminódios de maior tamanho estão a assumir novas funções. Ao contrário do que se podia pensar, não prejudicam a coleta de néctar nem alteram o tempo de visita do inseto polinizador, podendo até ser benéficos, atuando como barreira à entrada de chuva e evitando uma possível diluição do néctar. Além disso, uma vez que o seu posicionamento e tamanho permitem a sua visualização do exterior, passaram a ser mais um ponto de interesse e de atração para os polinizadores, aumentando o seu número de visitas e elevando o êxito reprodutivo da flor com a consequente incremento na produção de sementes. A dúvida que ainda permanece é se este órgão adquiriu uma nova função ou se está em processo de desaparecimento.

O gineceu consiste num único pistilo dividido em 2 carpelos, um único estilete e um ovário superior com 2 lóculos.
Scrophularia scorodonia var. scorodonia
Pormenor do 
cálice.
O cálice é composto por 5 sépalas ovais, de cor verde-claro, mais ou menos peludas e com a margem membranácea, inteiras ou ligeira e irregularmente dentadas.

A planta floresce e frutifica de março a junho ou julho.
O fruto é uma cápsula ovóide, mais comprida que o cálice dentro da qual existem numerosas e pequeníssimas sementes de cor escura.

Scrophularia scorodonia pertence ao género Scrophularia que engloba cerca de 200 espécies (Fischer 2004) e é um dos géneros mais importantes da família Scrophulariaceae. Distribui-se pelas zonas temperadas dos dois hemisférios, com maior concentração de espécies no sudoeste asiático. Muitas das espécies incluídas  em Scrophularia contêm propriedades medicinais e como tal, foram usadas durante séculos para combater diversas patologias como a sarna, eczema, psoríase, ulceras da pele e principalmente a escrófula (inflamação dos gânglios linfáticos do pescoço, associada à tuberculose) nome que, a partir do correspondente termo em latim “scrofula”, deu origem à designação do género e da respetiva família.
Muitas das espécies de Scrophularia são usadas como alimento pelas larvas de algumas Lepidoptera. Não raramente, este tipo de borboletas restringe a sua alimentação a um único tipo de planta, pelo que o seu desaparecimento de uma determinada área trará consequências graves para a sobrevivência das espécies que dela se alimentam. 

A família Scrophulariaceae foi recentemente reorganizada, tendo perdido muito dos seus membros. Numerosos estudos de filogenia (relação evolutiva entre as espécies) com dados moleculares demonstraram que determinados géneros não tinham afinidade genética com esta família, pelo que foram transferidos para outras, principalmente Plantaginaceae e Orobanchaceae. Tradicionalmente, esta família agrupava 5000 espécies divididas em 275 géneros. Consideravelmente emagrecida após o reajuste, a família Scrophulariaceae tem agora 65 géneros que totalizam aproximadamente 1700 espécies, com distribuição mundial. A importância económica desta família reside principalmente na indústria de plantas ornamentais.

Fotos do blogue: Zambujeira e Areia Branca /Lourinhã