"O grande responsável pela situação de desequilíbrio ambiental que se vive no planeta é o Homem. É o único animal existente à face da Terra capaz de destruir o que a natureza levou milhões de anos a construir"





quinta-feira, 11 de maio de 2017

Convolvulus tricolor L. subsp. tricolor

Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Corriola e gloria-da-manhã são nomes populares que referenciam algumas espécies de grupos taxonómicos diferentes, mas todas incluídas na família Convolvulaceae. Em território português esta família é representada por 6 géneros, entre os quais Convolvulus, Calystegia (que são autóctones) e Ipomoea (espécies exóticas).
São plantas sobejamente conhecidas e facilmente identificáveis pelas suas características flores em forma de trombeta, quer vestidas de branco, rosa, azul ou violeta, extremamente atrativas para diversos tipos de insetos essenciais à sua reprodução. São também denominadas bons-dias, campanelas, verdizelas ou madrugadas, entre outros nomes partilhados pela maioria destas espécies.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Fazendo jus aos seus apelidos populares, as flores de muitas destas espécies abrem antes do nascer do dia, aproveitando ao máximo a hora a que os insetos mais madrugadores já andam a procurar alimento. Contudo, a vida destas flores é muito breve pois murcham durante a tarde. Esta situação não é invulgar. Existem plantas cujas flores apenas ficam abertas durante alguns minutos (como é ocaso da hera, Hedera hélix); em contrapartida, outras há que duram mais de 10 dias. Cada caso é um caso e todas as situações têm uma razão. No caso presente parece que não se trata de uma mera programação genética. Alguns estudos sugerem que o tempo de abertura destas flores depende do tempo que levam a ser polinizadas. A rápida polinização resulta num emurchecimento mais rápido das pétalas, o que pode ser uma estratégia comportamental adaptativa para reduzir custos de energia decorrentes da manutenção das peças florais. Uma vez terminada a sua missão de atrair os polinizadores, deixaram de ser necessárias. 
Um dos suportes desta teoria reside no facto de flores ainda não polinizadas ficarem abertas durante mais tempo do que as já fecundadas, o que aumenta as probabilidades de uma polinização bem sucedida. Desta forma, a planta canaliza estas poupanças de energia na produção de mais flores, o que na realidade acontece de forma continuada durante todo o seu período de floração.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
A bela Convolvulus tricolor é uma destas espécies. Floresce por esta altura do ano, mais especificamente de março a junho, de preferência em terrenos secos e argilosos, em campos de cultivo, valas e bermas de caminho, pastagens e prados. 
Convolvulus arvensis - Veja mais AQUI

Convolvulus althaeoides - Veja mais AQUI

Ao contrário de outras espécies do mesmo género (Convolvulus arvensis ou Convolvulus althaeoides) que tantas vezes convivem nos mesmos habitats, esta não é uma espécie invasora. 
Cultivada em jardins pode acrescentar muito interesse como planta anual, desde que cultivada em pleno sol. O alegre colorido das suas corolas e os longos caules prostrados tornam-na especialmente indicada para cestos suspensos, jardins de rocha e bordaduras, onde o seu efeito pode ser verdadeiramente deslumbrante. 
Apesar de lhe faltarem os ímpetos invasores o seu cultivo generalizado como ornamental teve como consequência a naturalização fora das fronteiras de difusão natural da espécie, o que ocasionalmente torna difícil delimita-las com precisão.

Distinguem-se duas subespécies:
- Convolvulus tricolor subsp. tricolor que se  distribui sobretudo pela região mediterrânica: Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Marrocos e Argélia. É cultivada como adventícia na Turquia, Creta, Líbano, Medio oriente e Paquistão.
- Convolvulus tricolor subsp. cuprianus que se distribui pelo mediterrâneo central: Malta, Sicília, Marrocos, Argélia e Tunísia.
Estas duas subespécies diferenciam-se pelas sépalas do cálice que na subespécie tricolor se dividem em duas partes dissemelhantes, ao contrário do que acontece na subespécie cuprianus.
As plantas ibéricas correspondem à subespécie tricolor que em Portugal cresce de forma espontânea no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo e Trás-os-Montes e também no arquipélago da Madeira.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Convolvulus tricolor subsp. tricolor é uma herbácea, de hábito prostrado ou ascendente. Os caules, de cor avermelhada, são simples ou escassamente ramificados e estão revestidos de pelos densos, particularmente na parte superior. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor- caule
Estas plantas são anuais ou raramente, perenes de vida curta. Muitas vezes iniciam o seu ciclo de vida no Outono através da formação de uma roseta de folhas ao nível do solo. No final do Inverno regista-se um rápido alongamento dos caules e internós da roseta, de modo que os caules se esticam até aos 45 ou 50 cm de comprimento. Após a floração e uma vez maduros todos os frutos, os caules secam e morrem. Entretanto, na base da planta podem formar-se rebentos que darão origem a uma nova roseta de folhas que se tornará visível no outono seguinte. Neste tipo de crescimento a roseta de folhas protege as gemas de renovo do vento, do sol, do frio e dos herbívoros e está perfeitamente adaptado ao tipo de clima mediterrânico caracterizado pelos verões quentes, secos e ventosos e os invernos frios e chuvosos.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - folhas superiores
Na ausência de pecíolo, as folhas inserem-se nos caules diretamente pela base do limbo, de forma atenuada; são inteiras, com nervuras bem vincadas, glabras ou pubescentes, com pelos mais compridos nas margens. Forma e tamanho do limbo variam ligeiramente entre as folhas inferiores que são espatuladas ou oblanceoladas com um pequeno chanfro a meio do ápice e as superiores que são espatuladas ou oblongas com ápice obtuso.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
As flores têm corolas azuis com o centro em tons de branco e amarelo. Crescem solitárias no topo de longos pedúnculos eretos que emergem da axila das folhas superiores os quais apresentam 2 bractéolas de forma linear. Estes pedúnculos são eretos durante a floração mas encurvam durante a frutificação, não só pelo peso acrescido do fruto mas também porque continuam a crescer e se tornam um pouco mais longos.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - Bractéolas e cálice
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - Cálice
O cálice é mais ou menos acampanulado, com as 5 sépalas diferenciadas em duas partes morfologicamente diferentes. A inferior tem forma oblonga, convexa e é ligeiramente coriácea durante a floração. A parte superior é mais curta, amplamente ovada e as extremidades herbáceas terminam de forma aguda e ligeiramente curva. O crescimento do cálice prossegue mesmo depois da fecundação e até o fruto atingir a maturação.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - flor aberta e flores enroladas em botão
A corola é afunilada e em forma de trombeta, morfologia que resulta da fusão das 5 pétalas que a constituem. Quando a flor ainda está em botão, as peças florais (sépalas e pétalas) apresentam-se dobradas umas sobre as outras de forma contorcida ou espiralada, parecendo um guarda-chuva bem enrolado. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - pétalas vincadas pelo enrolamento apertado
Curiosamente, quando as flores abrem, as pétalas apresentam vincos nos pontos onde estavam dobradas. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor - o limbo das pétalas é reforçado por 5 nervuras
De forma característica existem 5 nervuras bem visíveis a meio do limbo de cada uma das pétalas, as quais não só reforçam a arquitetura floral como também encurvam as pétalas para fora e ajudam no processo do desenrolar da corola quando ela se abre na ântese. 
A corola apresenta 3 bandas transversais de cores bem diferenciadas, amarela na base, branca na zona intermédia e azul-violeta na parte superior. Estas bandas coloridas formam padrões visuais destinados a guiar os insetos em direção ao néctar e ao pólen, disponível no centro da flor.
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Nesta foto veem-se os filetes dos estames unidos formando uma coluna, as anteras com as suas listas azuis e ainda, os dois braços do estigma emergindo de entre os estames.
Estas flores apresentam órgãos reprodutores masculinos e femininos. Os estames são 5, com filetes comprimidos formando um a coluna curta que torneia o estilete, mas deixa abertas 5 estreitas passagens que conduzem ao néctar. Assim, ao entrar na flor, o corpo do inseto toca nos estigmas, ao mesmo tempo que fica empoado de pólen. 
As anteras são lisas e brancas mas com duas linhas azuladas. 
O disco nectarífero é intrastaminal ou seja, posiciona-se em forma de anel no centro da flor, em redor do ovário e dos estames. 
O ovário é pubescente e dele desponta um estilete que se divide em dois estigmas de cor branca. 
Convolvulus tricolor subsp. tricolor
Fruto capsular em vias de maturação, envolvido pelo 
cálice
O fruto é uma cápsula arredondada, pubescente até à maturação e dentro da qual se encontram 4 sementes de cor muito escura.

Sob o ponto de vista taxonómico Convolvulus tricolor inclui-se na complexa família Convolvulaceae, subfamília Convolvuloideae, tribo Convolvuleae e género Convolvulus.

Convolvulaceae:
A família Convolvulaceae, inclui cerca de 1650 espécies, agrupadas em diversas subfamílias e/ou tribos e 55 géneros que se concentram em regiões de clima tropical e subtropical, com apenas 10 % das espécies nas zonas temperadas. A família apresenta aspetos morfológicos bem definidos, como as flores em forma de trombeta e outras características bem marcantes próprias de climas secos. De forma geral, são plantas eretas ou prostradas e até trepadeiras volúveis que se enrolam sobre si próprias ou nas plantas vizinhas. Foi esta característica que deu nome à família o qual deriva do latim “convolvo” ou "convolvere"= entrelaçar.
Esta família conta com muitas espécies adventícias, ou seja naturalizadas, cuja distribuição está ligada a atividades humanas de dispersão intencional. Em contrapartida, a quota de endemismos é bastante grande.
Uma das características anatómicas mais percetíveis das Convolvulaceae é a existência de células foliares e/ou radiculares que segregam resinas glicosidicas (metabolitos secundários), responsáveis pelas propriedades purgativas, analgésicas e alucinogénicas de algumas espécies desta família.

Sob o ponto de vista taxonómico Convolvulaceae não tem sofrido muitas alterações desde que foi descrita por Jussieu em Genera Plantarum, em 1789. Contudo, a capacidade que exibe na diversificação e capacidade de colonização de regiões afastadas por todo o mundo, tem suscitado o interesse dos botânicos e diversos estudos têm sido realizados nas últimas décadas. Não é, pois, de admirar que se suscitem duvidas e se proponham alterações tal como acontece com a maioria das famílias de angiospermas.

Esta família foi dividida em 3 ou 4 subfamílias que por sua vez se subdividem num numero de tribos variável, oscilando entre 3 e 12. Embora, de forma geral, tenha havido consenso no que diz respeito à relação entre estes grupos, existe ainda alguma controvérsia quanto à sua classificação taxonómica. Um dos pomos de discórdia é o grupo Cuscutoideae or Cuscutaceae, cujo único género Cuscuta (também presente em Portugal) alguns botânicos prefeririam segregar da família por serem espécies parasitas com especificidades a nível da corola e embrião.
Certos autores também discordam sobre a delimitação de alguns géneros dentro da família baseando-se nas variações do tamanho, forma ou pubescência das brácteas, sépalas, corola e pólen e também tendo em conta a forma e divisão dos estigmas e algumas características diferentes nas sementes.
Ipomoea batatas (flor da batata-doce)
Foto de H.Zell. Fonte Wikimedia commons
O maior género desta família é Ipomoea com 500 a 600 espécies, de distribuição tropical e no qual se inclui a espécie alimentar Ipomoea batatas, a nossa conhecida e apreciada batata-doce.
Na região mediterrânica e mais especificamente em Portugal, os géneros autóctones mais representativos da família Convolvulaceae são Calystegia e Convolvulus, os quais estão estreitamente relacionados. A característica mais evidente que diferencia os dois géneros reside na existência de bractéolas grandes e empoladas no género Calystegia que quase escondem as sépalas, como podemos rever em Calystegia soldanella
Calystegia soldanella. Veja mais AQUI
Convolvulus:
Estudos muito recentes estimam que o género Convolvulus inclui cerca de 200 espécies que se distribuem por todos os continentes, em regiões de clima temperado e subtropical. O seu maior centro de diversidade situa-se na área geográfica próxima ao mar Mediterrânico e Ásia Ocidental, com outros centros de diversidade na Ásia Oriental e na América do Sul temperada, no sul e no leste da África e na Australásia, ou seja, as três zonas temperadas do hemisfério sul.
É um género característico de habitats pedregosos e arenosos, essencialmente secos, desde o nível do mar até aos 3000 mt de altitude. 
Algumas espécies são invasoras e altamente prejudiciais em campos cultivados, outras são economicamente importantes no comércio das plantas ornamentais e até no ramo farmacêutico. 
Na generalidade, são espécies subcosmopolitas, mas algumas são endemismos e ocorrem em áreas muito restritas.

Convolvulus fernandesii é uma das espécies de distribuição confinada a uma determinada região. Na realidade é um endemismo português. É muito rara e a sua distribuição mundial restringe-se à Serra da Arrábida, mais especificamente ao curto espaço da costa que vai de Sesimbra ao Cabo Espichel. Floresce durante a primavera e cresce nas escarpas, entre fendas e afloramentos rochosos, em locais quase inacessíveis, razão pela qual terá passado despercebida durante séculos. Foi publicada no Boletim da Sociedade Broteriana pelo botânico português Pinto da Silva (P.Silva &Teles)  apenas em 1980.
Convolvulus fernandesii - Foto de Sérgio Chozas
Fonte Flora-on
É um arbusto perenifólio de caules volúveis e entrelaçados. Os caules mais velhos são glabrescentes e lenhosos mas as hastes mais jovens são pubescentes. As folhas são pecioladas, elípticas ou oblongo-elípticas, com o ápice arredondado ou truncado. As flores, em grupos de 3 a 6, reúnem-se em inflorescências axilares, são pedunculadas e apresentam bractéolas. As 5 pétalas são brancas e estão unidas tomando a forma afunilada característica da família e do género. As sépalas são obovadas ou elípticas com pontas curtas, agudas e rígidas.
Esta é uma espécie protegida ao abrigo do Estatuto Directiva de Habitats 92/43, como espécie prioritária do Anexo II e anexo IV.
Veja mais sobre esta espécie AQUI e AQUI.

Fotos:
Calystegia soldanella: Praia da Areia Branca/Lourinhã
Convolvulus tricolor subsp. tricolor: Zambujeira e Areia Branca/Lourinhã
Convolvulus arvensis: Serra do Calvo/Lourinhã
Convolvulus althaeoides: Arribas do Caniçal /Lourinhã

Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt 
(exceto quando especificada outra fonte).

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Genista tournefortii Spach

A tribo Genisteae

Genista tournefortii subsp. tournefortii em competição com outras espécies mediterrânicas
Entre tojos e giestas, muitas são as espécies arbustivas semelhantes que florescem nesta época do ano. As flores são do tipo papilionáceo e quase sempre amarelas. Nem sempre é fácil distinguir estas espécies pelo que, para simplificar há quem as separe em dois grupos: as que têm picos e as que os não têm. Às espinhosas, geralmente mais baixas e compactas, habituámo-nos a chamar tojos e as outras, de ramos finos e elegantes e folhas diminutas ou escassas, conhecemo-las por giestas. Porém, tal "classificação" é demasiado simplista e nem sempre corresponde à realidade. O grau de parentesco entre estas espécies é muito estreito e a sua evolução processou-se de forma tão complexa que, atendendo às suas tendências evolutivas foi necessário agrupar estas - e outras espécies relacionadas - num grupo taxonómico adicional denominado tribo, o qual se posiciona entre a subfamília e o género. Assim sendo, tojos e giestas pertencem à família Fabaceae/Leguminosae, subfamília Faboideae e tribo Genisteae mas distribuem-se por géneros diferentes: Cytisus, Ulex, Genista e mais alguns, menos representativos, como Pterospartum, Echinospartum, Stauracanthus e Retama (mencionados aqui apenas os géneros que ocorrem em Portugal). 
Genista tournefortii subsp. tournefortii
A tribo Genisteae inclui 25 géneros e cerca de 550 a 570 espécies distribuídas de forma predominante pela região mediterrânica, com dois centros de diversidade, um a oeste (Península Ibérica e Marrocos) e o segundo a leste (região balcânica). É grande a sua importância ecológica, principalmente nos países da região oeste mediterrânica onde a grande diversidade de espécies que a constituem colonizaram as florestas degradadas pelos fogos e desflorestação, tornando-se espécies dominantes e caracterizando a paisagem. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii entre as estevas (cistus ladanifer)
As alterações climáticas e geológicas ocorridas há milhões de anos na região são causa e consequência da origem e distribuição das comunidades vegetais mediterrânicas, incluindo as identificadas em Genisteae
O cataclismo que propiciou a abertura do estreito de Gibraltar há cerca de 6 milhões de anos (permitindo a ligação do mar mediterrâneo ao oceano Atlântico), afetou a presente distribuição e  formação de diferentes espécies ibéricas e do norte de África, uma vez que, tendo constituído uma importante barreira para o fluxo de genes, pelo menos para plantas com mecanismos de dispersão de curta distancia, levou ao isolamento e à especiação por vicariância. 
Desde o final do Mioceno dois outros fatores históricos têm sido decisivos na forma como se distribuem as espécies e endemismos em redor do Mediterrâneo: o advento da seca de verão e, mais recentemente, o desenvolvimento de atividades humanas (Thompson, 2005).

NOTA:
A origem da especiação e distribuição das espécies resulta essencialmente de dois processos evolutivos, a dispersão e a vicariância.

A DISPERSÃO acontece quando uma população restrita a uma determinada área migra para outras áreas. Embora existam barreiras geográficas estas são ultrapassadas através de variados mecanismos de dispersão de sementes (levadas por animais, pelo vento, pela água). São várias as razões que induzem a esta migração, podendo depender do acaso, ser causadas por pressões intrapopulacionais ou por modificações ambientais. Com o passar do tempo, as espécies que migram acabam por se diferenciar da população original.

A VICARIÂNCIA é desencadeada por um ou mais eventos geológicos que leva à separação geográfica de uma determinada população, fragmentando-a. Mantendo-se a barreira que impede o contacto genético, as populações divididas evoluem de formas diferentes, conduzindo à formação de espécies diferenciadas. Convém notar que, "quando se fala de vicariância, acredita-se que a população ancestral ocupava o somatório das áreas habitadas hoje pelos seus descendentes, tendo sido dividida em populações menores pelo surgimento de barreiras que provocaram o isolamento entre subpopulações”.

Genista tournefortii subsp. tournefortii
As giestas do género Cytisus já foram referenciadas AQUI, com especial destaque para Cytisus grandiflorus, a vulgarmente conhecida giesta-das-sebes. Também os tojos do género Ulex tiveram AQUI o seu momento de glória. Assim sendo, esta parece ser a altura certa para fazer uma pequena apresentação sobre o género Genista.
Genista tournefortii subsp. tournefortii
Genista é um grande género, complexo e taxonomicamente difícil, cuja evolução genética revela poliploidias e aneuploidias (originando células onde há falta ou excesso de algum ou alguns cromossomas) relativamente recentes, que originaram espécies com alguma heterogeneidade. Estas espécies podem combinar espinhos com folhas ou apenas gerar folhas, geralmente de pequeno tamanho. As espécies do género Genista ocorrem na maioria dos países da Europa central e ocidental, embora a maior diversidade se encontre na Península Ibérica. Segundo o portal Flora-on, são 14 as espécies do género Genista que ocorrem em Portugal. 
Popularmente, se têm espinhos são apelidadas de tojos, se os não têm chamam-lhes giestas ou piornos. As representantes deste género assumem a forma arbustiva baixa, geralmente reunindo-se em maciços. Crescem em vários tipos de substratos, preferindo os solos altamente permeáveis. Ocorrem em diferentes condições climáticas, geralmente bem adaptadas a climas secos, limitando a transpiração através de estratégias adequadas como folhas pequenas ou espinhosas e/ou tomando a forma arredondada e densa semelhante a uma almofada, especialmente em zonas litorais mais batidas pelo vento.
A espécie Genista tournefortii é um endemismo do centro e oeste da Península ibérica e do noroeste de África. Consideram-se duas subespécies: a da Península Ibérica é Genista tournefortii subsp. tournefortii e a do norte de África (Marrocos) Genista tournefortii subsp. jahandiezii (Batt.) Talavera & P.E.Gibbs. 

Genista tournefortii subsp. tournefortii Spach

Genista tournefortii subsp. tournefortii
Esta é, pois, uma das muitas plantas do género Genista que são endémicas da Península Ibérica. Em Portugal ocorre sobretudo na faixa litoral centro (Beira litoral, Ribatejo e Estremadura) e também perto da fronteira com a Espanha (Trás-os-Montes e Beira Alta). Pode conferir mapa de distribuição em Portugal na Naturdata, em imagens por satélite, AQUI.
Genista tournefortii subsp. tournefortii
Forma um arbusto muito ramificado, baixo e alargado com cerca de 20 a 40 cm de altura. Os ramos são estriados,  lenhosos na base e cobertos de pelos compridos; podem ser ascendentes ou decumbentes, neste caso desenvolvendo-se rente ao solo, tornando-se ascendentes nas extremidades. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii - ramos velhos espinhosos em contraste
 com os mais jovens, cobertos de folhas
Os ramos mais velhos apresentam alguns espinhos em vez de folhas, mas os mais jovens têm folhas numerosas. 
Genista tournefortii subsp. tournefortii - folhas

Genista tournefortii subsp. tournefortii - folhas
As folhas, de pecíolo pouco desenvolvido e cobertas de pelos longos, dispõem-se de forma alternada. As da base dos caules apresentam forma ovada e são menos peludas que as superiores, as quais são lanceoladas, assim como as médias.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - inflorescência 
As flores reúnem-se no topo dos ramos em inflorescências de 2 a 5 cm que podem conter entre 6 a 30 flores e em cuja base existe uma bráctea de forma linear com 3 a 7 mm de comprimento
Genista tournefortii subsp. tournefortii - flor individual
Cada uma destas flores está ligada ao eixo da inflorescência por um pequeno pedicelo peludo de 1 a 2 mm de comprimento com bractéolas lineares inseridas a meio do pedicelo.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - partes da flor
As flores apresentam corolas de um amarelo dourado e são tipicamente papilionáceas, com 5 pétalas desiguais. A mais vistosa, denominada estandarte é mais comprida que as alas mas bastante menor que a quilha, a qual é bastante saliente. A pétala estandarte tem forma ovada com o ápice arredondado e a base em forma de coração, podendo ser glabra ou apresentar alguns pelos no nervo médio dorsal. As alas são oblongas e glabras embora apresentem alguns cílios nas aurículas. A denominada quilha (constituída por duas pétalas com pontos de união) é comprida, oblonga e com uma franja de pelos curtos na sua metade inferior.
Genista tournefortii subsp. tournefortii - cálice
O conjunto das pétalas é protegido pelo cálice que nesta espécie é formado por duas sépalas verdes e peludas. Estão unidas na base formando um tubo curto, após o que se separam em dois lábios subdivididos de forma desigual; o lábio superior é o mais curto e está bipartido em lóbulos triangulares; o lábio inferior, mais comprido, subdivide-se em três dentes lanceolados em que o central é maior que os laterais.
Sob o ponto de vista reprodutivo as flores estão equipadas com órgãos masculinos e femininos. O androceu tem um total de 10 estames que não são todos iguais, ou seja, 4 estames são curtos com anteras basifixas (presas pela base) e os restantes 6 são compridos, 1 com antera basifixa e os outros 5 com anteras dorsifixas (inseridas no filete pelo dorso). 
Posição das anteras nos estames em Genista tournefortii. FONTE

Os estames são monadelfos, isto é, os filetes estão todos unidos e formam um tubo membranáceo em torno dos órgãos femininos.

Do ovário desponta o estilete cuja parte visível é o estigma, sobre o qual se fixa e germina o pólen.
Esta espécie floresce de abril a junho ou julho.
Os frutos são vagens estreitas e achatadas, encurvadas como uma foice, coberta de pelos em ambas as faces. Dentro dela existem 1 ou 2 sementes escuras e de forma ovóide.

Genista tournefortii subsp. jahandiezii (Batt.) Talavera & P.E.Gibbs. 
Esta é a subespécie endémica do norte de África, mais especificamente de Marrocos, e ocorre nas montanhas do Rife e cordilheira do Atlas Médio. Diferencia-se da subespécie ibérica por ter todas as folhas lanceoladas e pelas brácteas na parte inferior da inflorescência que, ou não existem ou têm tamanho inferior a 2,5 mm.

Fotos de Genista tournefortii subsp. tournefortii - Arribas do Caniçal/Lourinhã


Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt 
(exceto quando especificada outra fonte).

quinta-feira, 16 de março de 2017

Género Ulex

Os tojos

Ulex densus
Ano após ano, com uma constância inexorável que é garantia de continuidade, quando o inverno ainda vai a meio e a primavera não passa de um desejo, já inúmeras espécies vegetais se apressam a florescer, coincidindo com a emergência de variadas espécies de insetos. Na realidade, não se trata de uma coincidência, pois muitas são as espécies de angiospermas que dependem dos insetos para que se realize a polinização, fecundação e a consequente produção de sementes. Em contrapartida, são também muitos os insetos que dependem das plantas, quer os que se alimentam das folhas (fitófagos, ex: besouros, escaravelhos, larvas de borboletas), quer os que buscam néctar e pólen (polinizadores, ex: abelhas, vespas, moscas, borboletas e traças adultas). De forma geral, plantas e insetos evoluíram em conjunto, interagindo de forma reciproca ao longo de gerações e gerações, o que levou a mudanças adaptativas conjugadas, nuns e noutros.
Agora, que a primavera está em vésperas de fazer a sua entrada formal, os campos cobrem-se de branco e amarelo, graças aos pequenos malmequeres, às giestas e principalmente, aos tojos.
Nesta época do ano, os tojos abrilhantam as viagens no norte e centro do nosso país.
Tojo é o nome popular que é dado às espécies do género Ulex, o qual se inclui na família das leguminosas, cujo nome cientifico é Fabaceae ou Leguminosae.
Esta é uma das maiores famílias botânicas e as suas espécies estão largamente distribuídas por todos os continentes, com exceção da Antártida.
Atualmente, o conceito que subdivide a família das leguminosas em 3 subfamílias Caesalpinioideae, Mimosoideae e Faboideae (esta ultima também designada por Papilionoideae) parece ser mais consensual do que já foi em tempos. As subfamílias Mimosoideae e Caesalpinioideae ocorrem principalmente nas regiões tropicais e subtropicais ao passo que a subfamília Faboideae, que inclui a maioria dos membros da família Fabaceae, se distribui de forma mais ampla, ocorrendo desde os desertos secos até às florestas húmidas.
Ulex densus
A subfamília Faboideae ou Papilionoideae,  na qual se situa o género Ulex, é a que tem maior importância económica a nível mundial, pois inclui espécies fundamentais na alimentação humana, tais como, a soja, o feijão, o amendoim, o grão-de-bico, o tremoço, as ervilhas ou as favas, apenas para mencionar algumas. 
Na generalidade, são plantas de hábitos variados podendo ser herbáceas, trepadeiras, arbustos e árvores. Muitas espécies são também utilizadas como ornamentais, outras têm grande valor comercial ou industrial devido aos produtos que delas podem ser extraídos, nomeadamente o tanino, substância usada na indústria do couro, já para não falar dos corantes, tinturas, colas, vernizes etc.
Nódulos fixadores de nitrogénio em raízes de uma leguminosa.
Fonte e credito da foto: MORNING EARTH 
Uma característica muito importante das leguminosas em geral e das espécies da subfamília Papilionoideae/Faboideae em particular, é o facto de serem capazes de converter o nitrogénio atmosférico (azoto) em moléculas proteicas, as quais são aproveitadas para o seu próprio desenvolvimento e o das plantas em seu redor. Isto acontece devido a uma relação simbiótica com bactérias dos géneros Bradirhizobium e Rhizobium que se fixam nas raízes das leguminosas, através de nodosidades visíveis a olho nu. Em contrapartida, as bactérias recebem das plantas os açúcares produzidos durante a fotossíntese. Esta simbiose permite não só a sobrevivência das referidas bactérias mas também que espécies de leguminosas possam desenvolver-se sem problemas em solos pobres em azoto e matéria orgânica.
As flores de Faboideae e consequentemente dos tojos, caracterizam-se pela corola papilionácea (do francês "papillon"=borboleta), formada por 5 pétalas desiguais, dispostas de modo característico e altamente especializado em atrair os insetos polinizadores: a pétala maior chamada estandarte, situada em posição superior é, pelo seu tamanho e forma, o foco de atração para os polinizadores; as duas pétalas laterais denominadas asas funcionam como pista de aterragem; e as duas inferiores, unidas apenas no ápice, formam a chamada quilha. A flor possui órgãos de reprodução femininos (carpelo = ovário, estilete e estigma) e masculinos (estames) os quais, com os filetes todos unidos num só,  estão encobertos pelas pétalas que formam a quilha. Quando os insetos pousam nas asas a quilha baixa, favorecendo o contacto destes com os estames e o estigma.Quando vão embora, os insetos levam o pólen colado ao corpo.
Esquema de corola papilionácea
Os tojos estão estreitamente relacionados com as giestas e tal como elas têm folhas muito pequenas e adaptadas a condições de secura ambiental. Contudo, diferem delas por serem extremamente espinhosos, com folhas que nas plantas maduras estão reduzidas a filódios espiniformes que resultam da modificação do pecíolo.
Todas as espécies de tojos possuem flores amarelas, muito vistosas no seu conjunto. Os frutos são vagens. Quer em flor, quer em frutificação, formam belos exemplares para plantar no jardim!
Matos baixos de tojos em sobreirais - Ponte de Sôr
As espécies do género Ulex são nativas de partes da Europa ocidental e noroeste de África. Contudo, a maior diversidade de espécies encontra-se na Península Ibérica. Formam um grupo muito homogéneo, de características morfológicas muito semelhantes, o que dificulta a sua identificação. As características primarias para identificar as espécies são  o tamanho das peças florais (especialmente a forma, indumento e dimensões do cálice, pois é a parte da flor que menos se modifica no decorrer das varias fases de crescimento e permanecem durante a frutificação), indumento dos caules e dos espinhos, frutos e a configuração da planta em geral.
Mato baixo quase exclusivamente constituído por tojos, em Cardigos/Mação
Numa região onde ainda domina o pinheiro, os fogos têm levado à modificação progressiva de alguns trechos da paisagem  com a plantação de eucaliptos. Estes são mais rentáveis a breve prazo mas limitam a biodiversidade. Nos pinhais existe grande diversidade de espécies (ex rosmaninhos, carquejas, urzes, estevas, tojos) mas debaixo dos eucaliptos pouca coisa consegue crescer.  
O processo de evolução do género Ulex parece ter-se processado através de mecanismos genéticos, tais como certas formas de hibridação, seguidas de poliploidia.  Ou seja, algumas espécies e subespécies resultaram de cruzamentos genéticos repetidos e complexos entre espécies diferentes deste mesmo género (hibridação introgressiva) do que resultaram duplicações no numero de cromossomas, em que cada célula apresenta múltiplos do conjunto básico de cromossomas (poliploidia).
As células da maioria dos organismos, assim como as plantas, contêm dois conjuntos de cromossomas denominados haplóides [um haplóide recebido da mãe (n) e outro haplóide recebido do pai (n), os quais formam um conjunto diplóide (2n)].
No caso do género Ulex algumas espécies são diplóides  mas outras são tetraplóides (com 4 conjuntos diplóides) ou hexaplóides (com 6 conjuntos diplóides). Uma vez que, de forma geral, o numero de cromossomas é constante em todos os indivíduos de uma determinada espécie, esta “regra” ou a sua alteração é de grande importância na determinação da filogenia e taxonomia das espécies.
A especiação (processo evolutivo pelo qual as espécies vivas se formam) do tipo poliplóide é um dos processos naturais mais importantes na evolução das plantas silvestres, nomeadamente das angiospermas e é mais comum em plantas perenes do que em anuais. Qualquer aumento no número de cromossomas provoca um aumento no tamanho de cada célula resultando no melhor desempenho de muitas espécies poliploides. Geralmente, os poliplóides tendem a produzir maior massa verde de folhas e com cor mais escura, flores e sementes maiores ou mais abundantes. De facto os tojos são espécies muito vigorosas que resistem aos fogos e tendem a tomar o lugar de outras plantações que se vão degradando como, por exemplo, pinhais e medronhais.

NOTA:
A poliploidia é um mecanismo que pode levar rapidamente à especiação. Assim, este processo é amplamente induzido artificialmente, em laboratório, em plantas cultivadas, pois permite o melhoramento das plantas dando-lhes características mais interessantes do ponto de vista comercial, tais como flores maiores, com florações mais prolongadas ou no caso das frutíferas, variedades com frutos maiores e/ou sem sementes. No melhoramento tradicional a troca de genes está limitada a espécies que são sexualmente compatíveis. Contudo, no chamado “melhoramento das espécies” têm vindo a ser utilizadas técnicas de engenharia genética mais agressivas que incluem a transferência de genes de plantas sexualmente incompatíveis ou mesmo de animais e micro-organismos. Muitos dos alimentos que hoje em dia consumimos (soja. milho, trigo, arroz, tomate etc) são geneticamente modificados (transgénicos), situação muito controversa mas que não está no âmbito deste blogue desenvolver. Pode encontrar informação sintetizada AQUI  ou mais detalhada NESTE ESTUDO

A taxonomia do género Ulex tem suscitado diferentes interpretações, havendo oscilações no numero de espécies e subespécies. Nomeadamente, Guinea & Webb (1968 Flora Europaea Volume 2 pag. 102 e 103) optaram por uma abordagem fortemente sintética, reconhecendo apenas 7 espécies, reduzindo as restantes à categoria de subespécies. No entanto, foram efetuadas pesquisas (Cubas, 1984 ; Rivas Martínez e Cubas, 1987; Cubas e Pardo, 1992, 1997, Pardo et al., 1994, Espíritu Santo et al., 1997) em resultado das quais, o grau de espécie foi restituído à maioria destes "taxons", estabelecendo-se um total de 15 espécies + 6 subespécies, classificação que é reconhecida pela Flora Iberica. Estas pesquisas foram baseadas na morfologia, numero de cromossomas, micromorfologia do pólen, habitat e distribuição geográfica.
Segundo o portal interativo Flora-on (Sociedade portuguesa de Botânica) são 10 as espécies do género Ulex nativas de Portugal continental, sendo que 7 dessas espécies são endémicas de regiões restritas do nosso país. Para este texto foram selecionadas duas destas espécies, Ulex europaeus porque é a espécie com maior distribuição geográfica e Ulex densus por ser uma espécie endémica da região onde se situa a Lourinhã (objeto de estudo neste blogue). No entanto, para fotos e informação sobre as restantes espécies clique AQUI

Ulex europaeus L.
Nomes comuns:
Tojo-arnal;  tojo; tojo-bravo; leiva; pica-rato

Ulex europaeus - Fonte Wikimedia commons
Foto de Lluca Lorenzi
Esta é a espécie mais comum do género Ulex. É a única espécie nativa da maior parte da faixa litoral da Europa ocidental, nomeadamente litoral norte e centro de Portugal continental, Espanha, França, Itália, Reino Unido, Irlanda, Suiça, Holanda e Alemanha. Durante o século XIX e inícios do século XX foi introduzida noutros países do norte da Europa (Polónia, Noruega e Suécia), e também nos arquipélagos da Madeira e Açores, Ilhas Canárias, África do Sul, China, Turquia, Índia e Sri Lanka, Estados Unidos e Hawaii, América do sul e Caraíbas, Indonésia, Austrália e Nova Zelândia, regiões onde se naturalizou rapidamente. 
A razão pela qual foi tão ampla e intencionalmente propagada  teve a ver não só com fins ornamentais mas também com a sua utilização como forragem e para cama dos animais. Tal como aconteceu com outras espécies, sementes de Ulex europaeus poderão ter sido introduzidas em terras mais distantes de forma acidental quando os colonos europeus importaram gado, como contaminantes do feno. Por outro lado as sementes também poderão ter sido levadas intencionalmente, com a ideia de usar o tojo como pasto para os rebanhos ou até como forma de mitigar as saudades da pátria. Entretanto, nos territórios onde foi introduzida, esta espécie revelou comportamento invasivo, sobretudo em habitats perturbados e em regiões onde o clima seco e quente lhe é favorável. É uma espécie difícil de erradicar devido ao seu porte compacto, duro e espinhoso, alem de que a enorme quantidade de sementes que produz constitui um banco de sementes de longa duração. 
Em alguns países têm sido utilizados meios de controle biológico através de insetos específicos, tais como o artrópode herbívoro conhecido como ácaro-do-tojo Tetranychus lintearius e coleóptero Exapion ulicis  que se alimenta das suas sementes. Estes são alguns dos seus inimigos naturais nos habitats naturais. Quando as plantas são introduzidos em terras alheias, os pequenos predadores e pragas específicas que as mantêm em equilíbrio no seu habitat nativo, são deixados para trás. Geralmente, tal contribui para o descontrole na sua reprodução.
Ulex europaeus - Fonte Wikimedia commons
Foto de Andy Rogers
Ulex europaeus cresce em locais ensolarados e em solos não calcários e habitualmente secos e arenosos, em charnecas, orlas dos bosques, pinhais e taludes da beira das estradas, ate 100 metros de altitude.
Ulex europaeus é a maior espécie do seu género, chegando a alcançar 2 ou 3 metros de altura. Começa timidamente a florescer no outono, continua a florescer de forma esparsa durante o inverno e o apogeu da sua floração acontece durante a primavera.  Distingue-se facilmente de outras espécies pois é a única que apresenta bractéolas, que envolvem a base do cálice, maiores que 2 mm geralmente, entre os 2 e 7 mm de largura.

As flores deste tojo têm sido popularmente usadas em fitoterapia, sob a forma de infusão para resolução de determinados problemas hepáticos e ainda em casos de baixa imunidade, apatia e falta de vitalidade anímica.  As sementes são tóxicas.
Ulex europaeus - a seta assinala as bractéolas 
Esta espécie subdivide-se em duas subespécies, ambas presentes em Portugal e as quais se diferenciam pelo tamanho e forma das bractéolas.
a) subespécie europaeus
Em Portugal continental ocorre no norte e litoral centro, "registando-se expansão da espécie em direção ao interior do país ao longo dos taludes das grandes rodovias" (Carlos Aguiar 20/11/20015).
Esta espécie ocorre nos Açores e Madeira como espécie introduzida e onde se comporta como invasora.
Caracteriza-se pela presença de bractéolas com 2 a 4 mm de largura e forma ovada
b) subespecie latebracteatus (Mariz) Rothm
Esta espécie é endémica de Portugal e Espanha.
Ocorre apenas em Portugal (norte e centro ) e Espanha (noroeste), principalmente na orla litoral.
As bractéolas têm 4 a 7 mm largura e a forma é suborbicular.
No seguimento do acima mencionado sobre a poliploidia nas espécies de Ulex, vem a propósito mencionar que a espécie Ulex europaeus tem um número de cromossomas base haplóide de n=16. A subespécie europaeus é hexaplóide (2n=96 ou n=48) ou seja, possui 3 conjuntos de células diplóides e a subespécie latebracteatus é tetraplóide (2n=64 ou n=32), com 2 conjuntos diplóides.

Ulex densus Welw. ex Webb
Nomes comuns:
Tojo-gatunho; tojo-gatunha; tojo-da-charneca

Ulex densus
Esta espécie  é endémica de Portugal e apenas ocorre na região litoral centro-oeste, entre o Cabo Mondego e o Cabo Espichel
Estende-se pelas arribas e plataformas litorais ou perto do litoral, geralmente em solos calcários, podendo alastrar para o interior até 20 km do mar.
Nas arribas costeiras os ramos densos tendem a cerrar fileiras para se protegerem dos ventos marítimos carregados de sal, pelo que os arbustos de Ulex densus assumem forma pulviniforme, ficando semelhantes a grandes almofadas. Em situações mais distantes da orla marítima os ramos dispõem-se de forma mais desordenada.

Plataforma rochosa da Serra do Calvo (a cerca de 3 km do mar) 
que serve de habitat a numerosas espécies, entre elas Ulex densus.

Ulex densus

Ulex densus
Ulex densus forma arbustos relativamente baixos de cerca de 50 cm de altura, com ramos eretos ou decumbentes, muito ramificados e cobertos de espinhos de cor verde vibrante que substituem as folhas. Na realidade, são prolongamentos do pecíolo, uma adaptação às condições de seca, registando-se assim um menor gasto de água por haver menos transpiração. Os espinhos novos são moles e de consistência flexível.
Ulex densus - espinhos novos e flexiveis
Ulex densus - espinhos maduros

Quando amadurecem, os espinhos tornam-se rígidos e muito afiados. Os ramos mais velhos tendem a secar, deixando a base da planta despida.

Ulex densus - ramos velhos e secos
Ulex densus. Flor aberta: cálice, corola, estames e estigma
Ulex densus floresce desde janeiro até maio ou junho. Protegidas por um cálice formado por duas sépalas de cor amarela e alguns pelos, as corolas são tipicamente papilionáceas, com 5 pétalas glabras e desiguais, do mesmo tamanho do cálice ou um pouco maiores: estandarte, asas e quilha. Os estames são monadelfos, isto é, com os filetes unidos desde a base e em quase todo o seu comprimento. Do ovário emerge um estilete que termina num estigma filiforme. As bractéolas passam despercebidas por serem muito pequenas, praticamente da mesma largura que o pedicelo.
Ulex densus - flor em botão
Ulex densus em fase de frutificação

Ulex densus: o fruto é uma vagem
As sépalas permanecem na flor durante a frutificação
O fruto é uma vagem do mesmo tamanho ou mais curto que as sépalas do cálice, com uma ou duas sementes. 
Quanto ao número de cromossomas Ulex densus é tetraploide, com 2n=64; n 32.
É uma espécie protegida pela Diretiva 92/43/CEE – anexo V de 21 de maio de 1992, (conhecida como Diretiva habitats) "relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e da flora selvagens".

Fotos de Ulex densus: Serra do Calvo/Lourinhã

Texto e fotos de floresdoareal.blogspot.pt 
(exceto quando especificada outra fonte).